Quarta-feira, 8h30 da manhã, Centro de Londrina. O horário de rush já passou, mas pelas próximas duas horas a FOLHA flagra quase 50 infrações de trânsito - contando apenas as mais gritantes, perceptíveis aos olhos de um observador comum. Nesse intervalo, a reportagem encontra apenas uma dupla de fiscais, que deixa passar em branco um delito grave.
São duas as especulações que se pode fazer a partir da pequena amostragem. Primeira: é grande o número de londrinenses que desrespeita as leis de trânsito e, portanto, um grande número de multas é justificável. Segunda: apesar de ser bastante criticada justamente por manter uma suposta ''indústria da multa'', a Companhia Municipal de Trânsito e Urbanização (CMTU) não tem uma cobertura adequada do perímetro mais ''abusado'' do trânsito londrinense.
Vamos aos exemplos colhidos na manhã de anteontem. Percorrida de ponta a ponta, a Avenida Duque de Caxias mostra não ser uma das vias campeãs apenas em número de buracos, mas também em infrações. Um carro deixa o estacionamento de uma loja na contramão; um ciclista cruza a avenida em trecho de declive, também na contramão da rua adjacente; um idoso atravessa a via em meio aos veículos, mesmo estando a dois metros da faixa, com sinal fechado. Vários pedestres cometem imprudência semelhante.
Num dos trechos mais movimentados da Duque, próximo à Avenida JK, um carro ultrapassa o veículo da FOLHA pela direita. Ao perceber que são fotografados, os ocupantes encostam o carro e fazem sinais de indignação. Mais à frente, um carro de auto-escola faz conversão em local proibido. Dentro dele, não há nenhum aluno aprendendo a dirigir, apenas um motorista e provável instrutor.
A infração que mais se repete, contudo, é o estacionamento de veículos de passeio em vagas de carga e descarga. São mais de 15 só na avenida, entre carros e motocicletas. Como consequência, vários caminhões param em fila dupla ou se vêem obrigados a contar com a compreensão dos donos de postos de combustíveis. ''Faço 40 entregas por dia e na maior parte delas encontro a vaga de descarga ocupada. Chego a rodar uma hora procurando lugar e até deixo entregas para o dia seguinte por causa disso. Nessas horas, a gente não encontra um fiscal para reclamar'', diz um entregador, que prefere não se identificar.
O problema se repete em várias vias centrais. Na Rua Pernambuco, um carro-forte pára em vaga inadequada porque o local reservado para veículos de transporte de valores está ocupado por dois carros comuns. Em frente à Delegacia da Mulher, na Rua Goiás, a vaga restrita a viaturas policiais está ocupada por dois carros - nenhum deles é oficial. Em frente à 10 Subdivisão Policial (SDP), na Rua Brasil, vários carros estacionam na calçada. Na Rua Mato Grosso, quase esquina com Rua Mossoró, mototaxistas fazem ponto em Zona Azul e quase invadem uma vaga reservada a deficientes.
A audácia parece não ter limites no coração da cidade. Uma viatura de um município da região é vista estacionada no meio do Calçadão. O motorista, policial militar, chega de mãos dadas com uma mulher, que carrega uma pilha de DVDs na mão. A alguns metros dali, na Mossoró, um Monza é ''abandonado'' em fila dupla. O motorista só ''resgata'' o carro mais de cinco minutos depois.
Nas dezenas de quarteirões rodados na Área Central, a reportagem vê apenas dois agentes de trânsito da CMTU. É na esquina da Rua Goiás com Rua Souza Naves. Nesse momento, é cometida uma das infrações mais graves dessa jornada: um carro fura o sinal vermelho. A dupla de fiscais está conversando e não vê a irregularidade. Em duas horas, a FOLHA não registrou nenhuma autuação. Se existe a tal ''indústria da multa'', a filial do Centro estava fechada.

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