Independente de qual grupo rival o menor pertence, no esquema de rixas mantido pelos meninos no Ciaadi, a maioria teme ser encaminhado para o Educandário São Francisco, em Curitiba. Esse temor é citados constantemente para os educadores, inclusive com recomendações: se um funcionário querido pelos adolescentes, por acaso, for transferido para a capital, os meninos o incluem nas orações, pedindo à Deus para que o amigo não vire ''o oitavo''.
Com um tom de voz que mistura brincadeira com temor, eles explicam o que é ser ''o oitavo'': o título faz referência à rebelião no Educandário São Francisco, promovida pelos menores em agosto do ano passado e que teve como saldo a morte de sete adolescentes.
Na ocasião, dez dos internos da Capital foram transferidos para o Ciaadi de Londrina, trazendo com eles as histórias de como tudo aconteceu. Luiz, 17 anos, apreendido por assalto, fez amizade com alguns deles e conta uma das histórias que ouviu, deixando no ar onde termina a realidade e onde começam os devaneios.
''Quando a rebelião começou, um grupo grande estava procurando um moleque chamado Curingão. Eles queriam matar ele (sic). Mas o Curingão foi esperto e colocou uma camisa na cabeça, cobrindo o rosto. A turma saía gritando 'cadê o Curingão?', e ele ia junto, gritando também (risos). Mas o disfarce não durou muito tempo. Mandaram ele (sic) tirar a camisa da cabeça. Por causa da brincadeira, disseram que ele ia sofrer para morrer. Cortaram um dos braços dele e ele começou a gritar muito. Quando começaram a cortar o outro braço, ele desmaiou. Terminaram de cortar e depois enfiaram um facão no pescoço dele''.
Esses temores são utilizados pelos menores como justificativa para manter estoques feitos com cerâmica, escovas de dentes e madeira nas celas, como forma de proteção. Fugas, apesar de pouco comuns, acontecem sobretudo com a ajuda de familiares, que eventualmente são acusados pelos educadores de levar serras para dentro do Centro, escondidas em muletas ou mesmo no próprio corpo.
O Ciaadi de Londrina, em funcionamento há seis anos, registrou apenas três casos de fuga. Na última, no início de janeiro, quatro menores serraram as grades de uma das janelas. ''Ganhei a serra de um dos educadores'', garantiu um dos fugitivos, Carlos, de 15 anos, preso por latrocínio (roubo seguido de morte). Uma semana depois da fuga, dois dos menores foram reintegrados ao Ciaadi, apreendidos após se envolverem com furtos distintos de motocicletas. Um terceiro resolveu se entregar, e o quarto continua foragido.

mockup