Transexuais buscam nova identidade
Giordani Rodrigues
Especial para a Folha
De Curitiba
Há uma semana, quatro pessoas passaram por uma rara cirurgia, inédita no Paraná. Três transexuais masculinos e um feminino tiveram seus órgãos sexuais transformados em órgãos do sexo oposto. As cirurgias ocorreram em um hospital público de Curitiba, que não pode ter seu nome revelado. Tecnicamente chamadas de neocolpovulvoplastia (confecção plástica de vagina e clitóris) e neofaloplastia (confecção de pênis e testículos), as cirurgias só podem ser autorizadas depois que os pacientes passam por exames que confirmam a sua necessidade.
O principal critério de avaliação e indicação pela cirurgia é a constatação de que os pacientes iriam passar o resto de suas vidas sentindo necessidade obsessiva de mudar a forma de seus corpos. Nesses casos, não há a possibilidade de reverter a situação apenas com psicoterapia. Como não se pode adaptar a mente ao corpo, adapta-se o corpo à mente.
Outros critérios utilizados na seleção são a ausência de transtornos mentais, comportamento não promíscuo, o fato de a pessoa trajar-se como seu sexo oposto por pelo menos dois anos, ser maior de 21 anos, não possuir doenças sexualmente transmissíveis, como Aids, e não utilizar drogas.
Durante os últimos dois anos, os quatro transexuais passaram por sessões semanais de psicoterapia, aplicação de hormônios sexuais para cada tipo de caso e o acompanhamento de uma equipe multidisciplinar composta de cirurgiões plásticos, urologistas, ginecologistas, psicólogos, pedagogos, assistentes sociais, enfermeiros, advogados e juízes.
O acompanhamento dos casos foi feito na Clínica de Sexologia da Universidade Tuiuti do Paraná, sob a responsabilidade da sexóloga Regina Teixeira. As cirurgias foram realizadas sob a chefia do cirurgião plástico Jalma Jurado, de São Paulo. Todas as operações tiveram sucesso.
Há muita desinformação e preconceito relacionados ao assunto. Isso faz com que os portadores do distúrbio tornem-se pessoas afastadas do convívio social e muitas vezes deprimidas. O fato de se identificar sexualmente com pessoas de sexo oposto, faz com que o transexual tenha aversão aos seus próprios genitais e muitas vezes deseje mutilá-los. Isso acaba acarretando, em muitas ocasiões, a ausência da atividade sexual, e a preferência por relações meramente intelectuais.
A maioria das pessoas vê os transexuais como pessoas sem-caráter. Eu sei que muita gente diz faz isso porque é safado. Nada mais longe da realidade. Quem convive com eles sabe que não são afetados, dificilmente são promíscuos e possuem fantasias como qualquer outra pessoa, apenas nasceram com o corpo errado, garante a sexóloga Regina Teixeira.
Os médicos e profissionais envolvidos são unânimes em afirmar que o transexualismo não se enquadra nas categorias tradicionais de homossexualismo. A cirurgia é a única forma de se reverter a situação.
Em artigo publicado na Revista de Medicina, Jalma Jurado afirma que o tema não pode ser ignorado pela ciência, pois fere a dignidade do ser humano no mais recôndito local da afetividade humana, o relacionamento sexual.
Jurado luta para que os estudos no Brasil se ampliem. Ele mesmo já realizou dezenas de cirurgias em seu consultório, em São Paulo. Em Curitiba, as cirurgias realizadas estão entre as primeiras autorizadas pelo Conselho Federal de Medicina. No caso do transexual feminino, sabe-se a cirurgia é inédita no País.
Depois de todos os tratamentos adequados, verificou-se que os pacientes partem para um processo de readaptação social e melhoram sensivelmente seus desempenhos no trabalho, nos estudos e principalmente nas relações afetivas.
A legislação brasileira ainda não autorizou a mudança do nome em documentos, porém alguns transexuais conseguem que isso seja feito em tribunais de instância inferior. Juristas ligados ao tema prevêem que a legislação irá se adaptar à realidade.





