Praticamente a vida toda, Claudinei Antônio Mendonça de Carvalho, ou simplesmente Carvalho para os mais amigos, foi dono de botequim em Cornélio Procópio (Norte). Mas ao se aposentar decidiu passar o ponto e descansar. Não deu muito certo. Há oito anos, acabou comprando uma pequena banquinha de metal sem nada dentro e passou a trabalhar com venda e troca de livros de amor.
Talentoso fazedor de redes desde a mocidade viu também que poderia expor estas suas outras tramas no mesmo lugar. Dito e feito: além de tirá-lo do ócio e render até mais do que ganha como aposentado, o negócio fez com que mantivesse a alegria na vida.
Com 73 anos, viúvo, pai de dois filhos e com quatro netos, Carvalho leva uma rotina simples e cheia de poesia. Acorda todo dia bem cedo e às 7h30 abre a velha banca que fica na Rua Mato Grosso, pertinho da Catedral Cristo Rei, no Centro. ''Como tinha me aposentado e vendido o bar, comprei a banca para passar o tempo e complementar a renda, porque o que o salário que a gente ganha não é brincadeira'', conta ele.
Por dia, ele passa pelo menos dez horas trabalhando. Sempre atento ao movimento por vezes frenético e noutros tranquilo, típico das cidades do interior. ''Tem pessoas que passam aqui todo dia só para conversar. Então é bom ficar aqui porque a gente tem sempre história para contar.''
No início do negócio, Carvalho teve que usar o tino de comerciante para se lançar na nova empreitada. Pegou alguns velhos livros românticos que tinha em casa, arrumou-os nas prateleiras e rapidinho atraiu a clientela. Seu público principal era e continua sendo o feminino, mais interessado nas novelas ligeiras de amor, ultrarromânticas e um tantinho eróticas de coleções como Sabrinha e Júlia. Foi criando fama e hoje quem procura por este tipo de obra segue direto até sua banca. ''Mas eu também tenho gibi para a criançada, livro de inglês, literatura, revistas e mais uns outros'', enumera o dono de bar que virou livreiro. Para manter sempre o estoque renovado, ele bolou a estratégia de trocar títulos. ''Na troca, a pessoa me dá dois e leva um. Nisso eu ainda ganho mais um pouco também'', fala.
Com o tempo, além dos livros, Carvalho foi ''sortindo'' a barraca. Passou a comercializar pimentas em conserva que ele mesmo prepara e a expor um artigo ainda mais raro: redes artesanais. A arte de construir as tramas ele aprendeu ainda jovem e praticamente sozinho. ''Um dia eu e um amigo tentamos fazer, ele parou e eu continuei. Hoje posso dizer que sou professor, embora não faça isso'', garante sem falsa modéstia.
Sua especialidade são as redes de pescaria que chegam a ter 70 metros de comprimento por três de altura. ''Faço por gostar mesmo e olha que hoje nem pesco mais. Quando era mais jovem, ia pescar no Paranazão, lá em Mato Grosso, mas hoje não aguento mais.''
Orgulhoso, ele conta que a fama de artesão chegou longe. ''Já vendi para gente de Curitiba e até de São Paulo'', afirma. E também teve que sortir a oferta do produto. Ele fala que hoje em dia recebe bastante encomenda para fazer rede para janelas e sacadas de apartamentos e até redes para campos e quadras de futebol. Mas mesmo com muito trabalho, Carvalho sempre reserva um tempinho para saborear sua ''cervejinha sagrada''. ''É o meu combustível. A vida tem que ser assim: devagar e sempre.''

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