Viva, olha o Jackie aí de novo, ele voltou a dar as fuças. Como tenho certeza que é ele? Pois se esse cascudo é meu afilhado de batismo, como é que... E se não for ele, parodiando às avessas a história do lobo e do cordeiro, deve ser seu filho, seu neto, bisneto... Não importa, pelo sim, pelo não, este jacaré aí da foto é o velho Jackie e tal certeza vem dos indícios de experiência, tão evidentes na foto.
Malandro velho, com certeza veio nadando de costas para evitar o assédio das piranhas que dizem existir no Igapó; desconfiado, não se afastou muito da beira do lago na hora de curtir o crepúsculo; esperto, deixou pra tomar sol numa hora em que havia pouca gente andando no local - embora as sujeiras da margem denunciem a presença do bicho homem, um vizinho acostumado a tratar mal o meio ambiente e as outras espécies que vivem no planeta, sejam do reino animal, vegetal ou mineral.
Por isso todo cuidado é pouco, o que explica os olhos arregalados de Jackie, atentos, mirando o horizonte possível, enquanto todo o resto do corpo se espicha pela grama aproveitando o sol ainda quente deste início de outono. Sobre Jackie, a única certeza é que ele foi trazido do Mato Grosso por pescadores, juntamente com mais dois irmãos, e foram jogados à noite, no lago Igapó, não me lembro se já por intenção de quem trouxe ou por não terem o que fazer com os bichos. Jackie foi o único sobrevivente.
Quem contou tudo isso foi o ex-assessor da Universidade Estadual de Londrina (UEL), Ludovico Bonatto. Só não me lembro se foi ele mesmo o autor da façanha, se um amigo dele - ou os dois juntos. Essas informações foram passadas quando o jacaré apareceu pela primeira vez, na beira do Igapó 2 ou 3, não sei se no final dos anos 80 ou início dos 90.
Como vêem, a minha memória não anda lá muito boa. Ainda bem que a visão da professora Mira Roxo, auxiliada por uma câmara fotográfica, está ótima, vendo longe. Foi ela que flagrou o Jackie nesta pose inesperada que, além de bonita, revela a existência de outros habitantes no lago, ainda que pouco vistos. Defensora roxa do Igapó, desde quando quiseram transformar o aterro do lago num centro de diversões, Mira, juntamente com a foto gentilmente cedida, fez um pedido: ''Precisamos cuidar para que mal intencionados não façam dele um churrasquinho''.
Então ficamos assim: um olho nos mal intencionados, para que nenhum mal causem a Jackie, e o outro nesta bela estampa do jacaré sempre que ele aparecer embelezando o ambiente onde moramos e do qual ele faz parte, mesmo que para cá tenha vindo contra a sua vontade.
Antes de encerrar, porém, este manifesto de boas-vindas ao Jackie, uma coisa ainda intriga: por que será que o jacaré voltou agora, depois de tanto tempo? Será que foi para comer ''traíras'' e ''bagres'' que estão pululando na região do Centro Cívico? Ou por que é ano eleitoral e ele apareceu só para lembrar aos possíveis candidatos a prefeito que já passou da hora de cuidar do Lago Igapó, patrimônio ecológico e importante área de lazer para os habitantes da cidade?

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