TRAGÉDIA NA UEL - Queda da marquise ainda não tem culpados
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domingo, 04 de fevereiro de 2007
Fernando Rocha Faro<br>Reportagem Local 
A viagem para os estudantes de Minas Gerais e São Paulo foi longa. Tanto que o pequeno atraso para inscrição no Congresso de Zoologia não foi empecilho para que o grupo conseguisse uma brecha para garantir participação no evento. Não passava pela cabeça de nenhum dos jovens que os minutos usados para cumprir os trâmites burocráticos fossem marcar para sempre a vida de cada um deles.
Um estrondo foi ouvido. Não houve, porém, tempo para reação. Os universitários do grupo e outros estudantes que se aglomeravam embaixo da marquise do Anfiteatro do Centro de Estudos Sociais Aplicados da Universidade Estadual de Londrina (UEL) foram atingidos pelo desabamento da laje. O saldo foi trágico: João César Eugênio de Boscoli, de 21 anos, morreu no local; Amanda Lucas Gimeno, 22 anos, chegou a ser socorrida, mas não resistiu aos ferimentos; e 20 pessoas ficaram feridas em estado grave.
Um ano depois do acidente, que ocorreu em 12 de janeiro, a apuração da responsabilidade está indefinida no vai-e-vem do inquérito entre a Polícia Civil e a Justiça. As investigações se sucedem e a interdição do prédio transformou o local num verdadeiro ''fantasma'' na lembrança do episódio. O trauma permanece. Um ano depois da morte da filha, o pai de Amanda, procurado pela reportagem, não quis falar sobre o assunto.
No processo, que ainda está no Fórum, vários estudos técnicos foram acrescentados. Um deles é a sindicância administrativa interna elaborada pela UEL, que indicou que as causas do acidente seriam falhas de projeto e execução. A universidade promoveu ainda outra investigação, para determinar por que não houve fiscalização durante a construção do prédio.
O próximo passo da apuração criminal é o recebimento do inquérito pelo delegado-adjunto da 10 Subdivisão Policial, Nelson Águila. E, dependendo das novidades que integrarão a peça, o indiciamento dos responsáveis poderá ocorrer em breve. Uma decisão, no entanto, somente poderá ser tomada depois que forem ouvidos os envolvidos no processo: UEL e a Construtora Mercosul, de Toledo.
''Ainda falta ouvir a versão de quem pode ter tido responsabilidade no caso. Mas já há fundamentos para indiciamento baseado no laudo do Instituto de Criminalística, que indica responsabilidade em conjunto entre os três agentes que assinaram o projeto, a execução e manutenção do prédio'', alerta o delegado Nelson Águila.
Este laudo, elaborado pelos peritos do Instituto de Criminalística de Londrina, divide a responsabilidade pela tragédia. O estudo indica que a queda na marquise ocorreu por problemas no projeto, execução e manutenção do anfiteatro. A conclusão é semelhante ao resultado apurado por uma sindicância interna instaurada pela UEL. Com apenas uma diferença: a avaliação descarta problemas de manutenção como causa da queda da marquise.
O perito criminal Luís Noboru Marukawa tem opinião diferente. Para ele, os três aspectos ''contribuíram'' para a tragédia. E o acúmulo de água na laje foi uma condição que fez com que a estrutura ruísse. ''A estrutura cairia de qualquer forma. Mas a presença da água contribuiu para que a marquise caísse naquele momento'', explica Noboru, que foi um dos primeiros peritos a chegar ao local.
Tragédia - Mesmo experiente em vivenciar tragédias por força do ofício, ele conta que a cena foi chocante. ''Com a primeira informação, imaginei que fosse um muro que tivesse desabado sobre operários. Não pensei que pudesse haver vítimas fatais. Quando cheguei, meu único pensamento foi que a cena em si era de uma grande tragédia'', comenta.
A repercussão também impressionou Noboru. No mesmo dia, amigos dele ligaram dos Estados Unidos contando que viram a notícia. Agora, ele diz que apenas espera o resultado da apuração através da imprensa. Comenta também que está satisfeito com a qualidade do laudo elaborado pela equipe do IC.
Ele pretende, em parceria com o também perito Daniel Felipetto, lançar um livro com o título ''Desabamento da Marquise: Aspectos Legais e Técnicos.'' Uma obra que, apesar de pronta e só à espera de patrocínio para ser viabilizada, trata de uma história que ainda está longe de ter um final.


