Traficantes de drogas dominam Parolin
PUBLICAÇÃO
sábado, 18 de outubro de 1997
Cristine Pieske 
Curitiba
Albari RosaTerritóriosPoder na favela é dividido entre seis gangues. As mais atuantes são Comando Jovem do Parolin, Criminal Black e Gangue do BueiroA polícia admite e os moradores, assustados, confirmam: a favela do Parolin, em Curitiba, está se transformando em um território dominado pelo tráfico de drogas. O comando da região, como costuma acontecer nos morros cariocas, é exercido livremente pelos traficantes e líderes de gangues, que dispõem de uma rede de informações capaz de intimidar os policiais. A favela, devidamente apelidada de Morro do Parolin, se transformou em um local onde os assaltos e as trocas de tiros acontecem a qualquer hora do dia.
Algumas casas, situadas no limite da favela, chegam a exibir cercas eletrificadas e cães de guarda para tentar impedir os roubos. As testemunhas da violência, como em todas as grandes cidades, preferem não falar e se escondem com a chegada da equipe de reportagem. Eu vejo as coisas que acontecem por aqui, mas não sou idiota de abrir minha boca, avisa um morador que trabalha como catador de lixo. É melhor vocês não passarem desta esquina porque podem não voltar inteiros, alerta um comerciante, que recomenda cuidado e menos ousadia para quem quiser cruzar o morro.
O movimento de venda de drogas é maior durante a noite, quando a favela é invadida pelos carros de luxo dos consumidores de cocaína, crack e maconha. Desde que o dia escurece até à meia-noite, os aviões (vendedores) e olheiros (informantes) correm as ruas do morro para abastecer os usuários. Apesar do comércio explícito de drogas, que facilitaria o flagrante da polícia, os olheiros - na maioria crianças com idades entre 8 a 10 anos e que ganham em média R$ 15 por noite - avisam os traficantes sobre uma possível batida policial. A qualquer movimentação estranha, a notícia corre o morro e os pontos de venda são imediatamente desfeitos.
O poder na favela é dividido entre seis gangues, das quais as mais atuantes são o Comando Jovem do Parolin, Criminal Black e Gangue do Bueiro. As áreas de atuação de cada uma delas são pouco conhecidas pela polícia, mas são apontadas com facilidade pelos moradores. A maioria prefere agir no trecho mais alto do aglomerado de barracões, chamado de Morro do Sabão, onde as milhares de ruelas e becos se confundem e mantêm a ação policial afastada. Os muros espalhados pela região exibem os símbolos de cada grupo, demarcando as áreas de influência.
Os investigadores da Delegacia de Antitóxicos reconhecem a existência oficial de dois grandes líderes do tráfico no Parolin, mas preferem não nomeá-los para não atrapalhar as investigações. A Folha tentou durante mais de uma semana convencer um dos líderes do tráfico, conhecido como Beá, a dar entrevista, mas ele preferiu não se expor. Segundo informações da Delegacia Antitóxicos, os dois líderes são responsáveis pela distribuição das drogas. As investigações feitas até agora indicam que os chefes dos grupos possuem armamento capaz de desafiar o poder de fogo dos policiais. São fuzis AR-15, pistolas 9 milímetros e vários revólveres de calibre 38.
A polícia não nega a dificuldade de fazer frente ao poder dos traficantes do Parolin, que têm a seu favor uma área com características geográficas que atrapalham as investigações. Só podemos entrar na favela até determinado trecho; a partir daí, temos nosso carro apedrejado e sofremos ameaças, afirma o sub-comandante do 13º Batalhão da Polícia Militar, Jorge Luis Rodrigues. Desde o início do ano, o Batalhão registrou apenas 31 ocorrências relacionadas ao tráfico e consumo de drogas no Parolin - número que, segundo os moradores, não corresponde nem mesmo à média diária de transações feitas no morro.


