Traficante dá aula de inglês na cadeia
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domingo, 08 de dezembro de 1996
Mauri Konig<bR>Sucursal de Foz do Iguaçu 
O traficante de drogas nigeriano Anthony Moses Nzekwe, 32 anos, jamais imaginou que um dia seria professor. Ele diz que é formado em Ciências Políticas na Nigéria, mas acabou dando aulas de inglês para um grupo de 15 detentos brasileiros no minipresídio de Foz do Iguaçu, onde está preso há pouco mais de dois anos. Anthony está no Brasil há seis anos e meio e fala português quase sem sotaque.
Outros 24 presos também estudam português e matemática com quatro professores do Centro de Ensino Supletivo (CES). As aulas de 1ª a 4ª séries foram iniciadas há seis meses e a formatura da primeira turma está prevista para a próxima quinta-feira. Eles vão comemorar a conquista com uma festa antecipada de Natal no próprio minipresídio.
Sem qualquer metodologia, o primeiro passo de Anthony foi ensinar aos presos noções elementares da língua inglesa. Ele dá aulas há três meses, três vezes por semana, numa sala improvisada na cadeia. Diz que já vê um tímido progresso, mas salienta que os estudos poderiam ser mais produtivos se tivesse material escolar. Anthony usa uma lousa e pincel atômico, mas nem todos os alunos têm caderno ou caneta para fazer anotações.
A idéia de dar aulas surgiu da necessidade de ocupar o tempo com algo produtivo. Eu não fazia nada na prisão. Só comia e dormia. Não rendia nada para a sociedade. Então resolvi dar aulas, diz o nigeriano. Quero retribuir tudo o que aprendi no Brasil. Anthony diz que veio ao Brasil através de um intercâmbio cultural, custeado pelo governo do seu país.
O nigeriano chegou ao País sem saber falar português e hoje lê e conversa fluentemente. Ele diz que aprendeu num curso intensivo de quatro meses na Universidade Nacional de Brasília. Depois disso, mudou-se para Foz do Iguaçu com o colega Nwachinemeke Chinedu. Ambos foram presos há pouco mais de dois anos por tráfico de cocaína.
O pouco que sabe falar em português, Chinedu aprendeu com Anthony e com os presos brasileiros na cadeia. Os dois foram condenados há 3 anos de prisão. Quando for libertado, Anthony diz que pretende voltar para a Nigéria.
Reintegração Quatro professores do CES dão três aulas semanais para 24 presos no minipresídio de Foz. A primeira turma vai se formar na próxima quinta-feira, com uma festa de Natal antecipada. A presidente do Conselho da Comunidade para o Presídio, Sílvia Helenice Wagner de Souza, acredita que a iniciativa é fundamental para a humanização e reintegração dessas pessoas à sociedade
As aulas representam o caminho para a melhora do sistema penitenciário. É o início do resgate da dignidade humana, diz Sílvia. Enquanto prepara a festa de formatura, ela aguarda o julgamento dos pedidos de indulto de Natal. Vinte e três presos podem ser beneficiados. Eles estão cumprindo penas curtas, não cometeram crimes hediondos e são bem comportados.
Uma das alunas do curso do CES é a traficante de drogas Jurema Fagundes, 29 anos. Ela foi presa há oito meses junto com o marido, Rui Alair da Silva, 24, por tráfico internacional de drogas. Jurema foi condenada a 3 anos e 50 dias e Rui, a 3 anos e 8 meses porque já tinha antecedentes criminais. Os quatro filhos do casal moram com os pais dela.
Jurema estudou até a 3ª série do primário e só voltou aos estudos na prisão para driblar a ociosidade, mas agora já pensa em se esforçar mais no aprendizado para tentar conseguir emprego quando sair da cadeia. O marido também estudava, mas desistiu depois de ficar doente.


