O proprietário rural João Faustino Pastre, 65 anos, apoiado por lideranças políticas de Matelândia (75 quilômetros ao nordeste de Foz do Iguaçu) está acusando a Ferroeste de prever o desmatamento de uma área nativa no projeto do ramal Cascavel-Foz do Iguaçu da ferrovia.
A mata de 25 hectares - a maior área de preservação do município - está localizada em um terreno acidentado à margem da BR-277, no Sítio São Camilo, a dois quilômetros do centro de Matelândia.
A Vega Engenharia, responsável pela elaboração do projeto de engenharia do ramal, já demarcou a área com estacas num trecho de 1,5 quilômetro de extensão, que corta a mata.
Segundo levantamento feito pela Comissão de Meio Ambiente de Matelândia (Comam), se o traçado não for alterado, serão sacrificadas cerca de 140 árvores centenárias, entre elas perobas, canelas, alecrins e marfins.
‘‘A parcela que vai ser desmatada compromete a vida de várias espécies de pássaros e outros animais’’, acredita Nelson Kamei, presidente da Câmara de Vereadores de Matelândia, um dos braços políticos do movimento preservacionista.
Em abril de 1998, uma audiência pública promovida pela Ferroeste e realizada em Medianeira, reuniu políticos, empresários e proprietários de terras, interessados no projeto do ramal, de 179 quilômetros de extensão.
A partir desta data, quando a empresa tornou público o traçado básico, a Comam, a Adenan (Associação dos Defensores da Natureza de Matelândia), a Secretaria Municipal de Agricultura e de Meio Ambiente e a Câmara de Vereadores se mobilizaram para tentar evitar que a área sofresse danos.
A última solicitação foi feita junto ao Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis (Ibama) e para o Instituto Ambiental do Paraná (IAP).
Um dossiê contendo fotos, escrituras com mapas, dados topográficos e documentos que comprovariam que a mata é reconhecida como de preservação, foi anexado à correspondência, enviada no último dia 15. Antes, o grupo já havia feito pedidos a escritórios regionais destes órgãos, sem obter respostas.
‘‘Os benefícios desta obra não justificam a destruição de uma área preservada há tanto tempo’’, acredita Anacleto Luiz Perondi, secretário municipal de Agricultura e Meio Ambiente.
‘‘Temos a informação que, por ser uma área que precisa ser aterrada, a destruição será muito grande. Por isso, vamos resistir e eles vão ter que usar muita força para continuar a obra quando ela chegar por aqui’’, ameaça uma das lideranças, que pede para não ser identificada.
O proprietário Faustino Pastre faz parte da terceira geração de sua família no município. Seu avô chegou em Matelândia em 1951 e decidiu manter intacta uma área acidentada, conhecida como Serrinha do Boi Preto. ‘‘Se não servia para o homem plantar pelo menos os animais e as árvores podiam ficar lá para os netos’’, lembra Pastre, citando seu avô.
Em sua propriedade, de 60 hectares, Pastre cultiva milho e amora, além de ter uma grande área reservada a avicultura e a suinocultura, com produção associada a grandes frigoríficos. Na mata, cortada por um riacho e que possui algumas nascentes, vivem quatis, gatos-do-mato e outras espécies que habitam o Parque Nacional do Iguaçu.

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