Trabalho reduz reincidência em crimes
PUBLICAÇÃO
segunda-feira, 10 de maio de 1999
Lúcio Flávio Moura Especial para a Folha 
Adolescentes infratores de Foz do Iguaçu estão reincidindo menos em delitos depois da entrada em funcionamento de um complexo de internação provisória inaugurado em abril de 1998.
Dos 200 internos que passaram pela unidade do Centro Integrado de Atendimento ao Adolescente Infrator (Ciaadi), 25 voltaram a cometer crimes. O índice de 12,5% é o menor das três unidades do Instituto de Ação Social do Paraná (Iasp).
As unidades de Curitiba, inaugurada há quatro anos, e de Londrina, que funciona desde dezembro do ano passado, apresentam índice de reincidência de 30%.
Experiência inovadora, os Ciaadis fazem parte do projeto de descentralização e regionalização da política para menores infratores, idealizado para respeitar os principais pontos do Estatuto da Criança e do Adolescente, em vigor desde 1990.
Ney de SouzaAdolescente produz peça artesanal no Ciaadi: reinserção socialAté a entrada em funcionamento do novo modelo, os infratores juvenis paranaenses ficavam detidos em celas comuns de distritos policiais, aguardando decisão judicial.
Na época, o Educandário São Francisco, na capital do Estado, com capacidade para 200 internos, era a única instituição de recuperação em todo o Estado. Segundo fontes da Polícia Civil, a reincidência no antigo modelo chegava a 50%.
A experiência dos Ciaadis é vitoriosa porque envolve um trabalho de reinserção social com a ajuda da família e da comunidade, define Alouísio Pacheco, diretor-presidente do Iasp, autarquia ligada à Secretaria Estadual da Criança.
Embora permaneçam em celas, os infratores cumprem uma extensa agenda de atividades, que inclui trabalho com psicólogos, enfermeiros, psiquiatra, exercícios físicos, produção de peças de artesanato que são vendidas em feiras e exposições e sob encomenda para empresários, além de constantes visitas de religiosos, que realizam missas e cultos. Até esta semana, nenhuma rebelião havia acontecido desde a fundação do Ciaadi de Foz do Iguaçu.
A unidade do Iasp em Foz, um prédio de 1,6 mil metros quadrados na Avenida General Meira (região sul da cidade) onde permanecem em média 25 rapazes e moças entre 12 e 18 anos, ainda não abriga a Delegacia do Adolescente, a Promotoria de Justiça e o Juizado de Infância e Juventude, como previa o projeto inicial para os Ciaadis. Não há previsão para que toda a estrutura comece a funcionar.
Dependemos do Judiciário para completar o complexo, mas acredito que estamos perto disso, arrisca o diretor-presidente do Iasp. Apenas na unidade de Curitiba, toda esta estrutura está em funcionamento.
Pelas regras do Iasp para os Ciaadis, que obedecem ao Estatuto da Criança e do Adolescente, o adolescente permanece, no máximo, 45 dias no Centro. Ao final do prazo, é avaliado o progresso do interno, que volta à familia ou, nos casos mais graves, é enviado ao Educandário São Francisco, em Curitiba, para cumprir pena.
Quase todos os adolescentes que chegam aqui são usuários de crack, cocaína ou maconha. As atividades terapêuticas servem para desintoxicar os internos e eles até esquecem do vício, conta a assistente social e advogada Priscila Alves Jorge Lodetti, diretora da unidade de Foz.
Separados por idade em nove alojamentos, os adolecentes (cerca de 10% são meninas) se alimentam quatro vezes por dia e segundo Priscila saem com um aspecto físico melhor, que impressiona até mesmos os parentes que visitam a instituição. Não somos uma unidade de recuperação, nosso trabalho é provisório, mas muitos pais nos agradecem pelo tratamento dado aos filhos, orgulha-se a diretora.


