Conseguir um emprego em tempos de crise não tem sido tarefa das mais fáceis. Por isso, estar com os documentos em dia quando aquela sonhada vaga aparece é obrigação de qualquer trabalhador que se preze. Mas tem uma turma que parece não estar muito preocupada com isso. É o que é possível pensar de quem protocola o pedido para ter a Carteira de Trabalho e Previdência Social (CTPS), mas não aparece para retirá-la.
É estranho olhar as gavetas dos armários da Delegacia Regional do Trabalho de Londrina e constatar centenas de carteiras de trabalho esquecidas e/ou abandonadas por seus donos. De acordo com o chefe substituto do Setor de Atendimento na área de trabalho, emprego e renda (Seater), José Roberto Barizon Pires, perto de 1,3 mil unidades prontas seguem arquivadas à espera de seus proprietários.
E o mais incrível é que dezenas delas já "habitam" as gavetas do posto em Londrina há mais de 15 anos. "Têm carteiras aqui de 1997, ano em que elas deixaram de ser manuais para adotar o formato digitalizado", explica o diretor.
Mas por que um documento oficial e considerado importante até para identificação é deixado de lado dessa forma? Nem mesmo quem trabalha com a emissão de carteiras há tanto tempo sabe responder precisamente. "A maioria faz a carteira ainda adolescente e muitos deles esperam a época de férias escolares para vir dar entrada. E depois que as aulas voltam vão deixando. Às vezes vem fazer porque o pai obriga. E tem ainda aquelas pessoas que fazem e só vêm buscar quando arrumam emprego mesmo", conta Pires.
Outros dois fatores ajudam a explicar o descaso: a possibilidade de emitir uma segunda via em caso de perda ou extravio e a gratuidade do procedimento. "Como é de graça, a pessoa acaba não ligando muito", acrescenta. Porém, para conseguir tirar a segunda via, é necessário apresentar o boletim de ocorrência (B.O) e um documento oficial no qual conste o número da CTPS original.
Mas se não há prejuízo financeiro ao dono, a perda para os cofres públicos é certa. A direção do posto em Londrina não soube apontar o valor desperdiçado por unidade emitida, mas ressaltou que se trata de um material que não é simples e que possui custo maior em relação aos tipos de papéis menos resistentes.
O cuidado que a Delegacia Regional do Trabalho tem em arquivar as CTPS abandonadas surpreende alguns desenganados, que muitas vezes já dão o material como perdido. "Esses dias atendemos um rapaz que havia feito a carteira em 2008. Ele ligou perguntando se ela estava aqui ainda, nós achamos e ele veio buscar."
Pires reforça que o órgão não tem autonomia para se desfazer do material porque se trata de um documento.
E vale lembrar que é preciso encarar uma pequena maratona para conseguir tirar a carteira de trabalho. A procura diária é alta, mas o número de novos protocolos é limitado em aproximadamente 50. Por mês, o posto de Londrina, responsável pelo atendimento a 104 municípios da região, emite cerca de 3 mil novas carteiras de trabalho.

REGIÃO
A situação se repete também em outras cidades da região. A responsável pela emissão da carteira de trabalho de Arapongas, Marilei Ferreira da Silva, destaca que o problema é grande. "Estou com estoque desde 2000 que tento entrar em contato com os donos das carteiras, mas muitos nem têm telefone mais.
Do ano 2002 para cá, ficaram 100 carteiras paradas aqui", aponta.
Em Rolândia, o número de CTPS acumuladas é ainda maior. Desde 2000, já são 250 emitidas e esquecidas por seus donos. "Muitas vezes cai no esquecimento e as pessoas acham que podem tirar em outro lugar, mas não podem", apontou Rafael Galeano de Souza, responsável pela emissão das carteiras de trabalho da cidade. De acordo com ele, a pessoa que já fez o documento não consegue fazer outro porque o sistema integrado acusa que já existe um documento em nome dela.
"Alguns pedem para enviar por meio de representação intermediada pela Delegacia Regional do Trabalho", destaca.
Mas esse serviço nem sempre é possível. O responsável pela emissão da CTPS de Ibiporã, Willian Shigueo Sonoda, contou que o posto avançado não envia o documento para outras cidades. Desde 2009, são 96 carteiras de trabalho abandonadas por seus donos.
Em Apucarana, segundo o gerente da Agência do Trabalhador, Lucas Leugi, 230 carteiras de trabalho emitidas não foram retiradas. "Somente de 2016 são 60 carteiras confeccionadas que não foram retiradas." (Colaborou Vitor Ogawa)

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