Trabalho itinerante dificulta estudos
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terça-feira, 10 de março de 2009
Carolina Avansini<br> Reportagem Local 
O trabalhador rural Oliveira Ramos, de 58 anos, já se chamou Florêncio. O analfabetismo, entretanto, acabou modificando-lhe o nome aos 18 anos, quando tirou o título de eleitor. Sem saber ler ou escrever, Ramos queria fugir do estigma da impressão digital marcada no documento e pediu a um amigo para ensiná-lo a escrever o nome de batismo: Florêncio Oliveira Ramos. Quando chegou a hora de assinar, ele esqueceu a grafia do primeiro nome e acabou registrando apenas os dois sobrenomes no título, mudando para sempre a forma como seria chamado.
Morador do assentamento Tesouro, em Tamarana (Norte), Ramos conseguiu superar o analfabetismo em 2006, depois de frequentar uma turma do programa Paraná Alfabetizado, do Governo do Estado. Atualmente, cursa o módulo de 5ªa 8ªsérie da Educação de Jovens e Adultos (EJA), percorrendo diariamente 20 quilômetros para frequentar as aulas da noite.
Minha vida mudou muito, consigo usar melhor as palavras e me comunicar. Até a memória melhorou depois que comecei a frequentar a escola, deixei de ser esquecido. Enquanto tiver oportunidade, vou continuar estudando, disse o assentado, que não acha difícil aprender coisas novas, mas tem dificuldade em reaprender conteúdos ensinados de forma errada durante a infância. Depois de aprender errado, é duro corrigir, sentencia.
Graças ao esforço empenhado durante os últimos anos, Ramos deixou de fazer parte da estatística que coloca Tamarana como a cidade que tem o maior índice de analfabetos na região atendida pelo Núcleo Regional de Educação (NRE) de Londrina. De acordo com dados do Censo de 2000 (o mais atualizado disponível), 22% da população do município vizinho é analfabeta, o que correspondia a 1.480 pessoas no início da década.
A explicação para o alto índice está no fato de se tratar de uma região essencialmente agrícola e com uma população dispersa pela zona rural, que inclui os vários assentamentos existentes na região. São trabalhadores itinerantes com dificuldade de se fixar. Além disso, eles moram distantes dos locais de aula, o que torna o acesso muito cansativo. A maioria dos alunos não consegue enfrentar essa rotina, explica a documentadora escolar Maria de Lourdes Alves, que coordenou o Paraná Alfabetizado em Tamarana nos últimos três anos.
O atual coordenador do programa, Edison Antônio de Azevedo, acrescenta que grande parte dos analfabetos não tem perspectiva de melhorar de vida e acaba sem incentivo para frequentar as aulas. Muitos acham que a pobreza é um impedimento para participar da escola.
Eles afirmaram que a evasão é a maior dificuldade para superar o analfabetismo no município. Todos os anos, apenas 20% a 30% dos matriculados concluem os oito meses do Paraná Alfabetizado. Uma parcela ainda menor dá continuidade aos estudos através da EJA.
O não acesso à educação resulta em famílias sem noção de cidadania. O município enfrenta falta de instrumentalização da mão de obra com relação aos seus direitos e deveres, explica Maria de Lourdes. Segundo ela, muitos pais analfabetos costumam tirar os filhos da escola durante a colheita, perpetuando as condições de iletramento predominantes na região.
A situação enfrentada por Tamarana é similar à de outros pequenos municípios do Norte do Paraná. Eunice Satie Fuzita, coordenadora regional do Paraná Alfabetizado, explicou que na maior parte das cidades que registram altos índices de analfabetismo é também alto o números de trabalhadores rurais volantes que migram para outras regiões em busca de trabalho e acabam abandonando as aulas.


