Trabalho infantil dentro da classe média-alta
Trabalho infantil
dentro da classe
média-alta
Aos sete anos G.D. tem dentro do próprio quarto, no apartamento que fica num bairro de classe média alta, em Curitiba, o que muitas famílias brasileiras ainda sonham em comprar. A tradicional coleção de bichos de pelúcia e brinquedos divide espaço com aparelho de televisão, vídeo-cassete e vídeo-game (com quatro joysticks de cores diferentes). Numa estante, lado a lado, ficam dois cofres; um deles é uma miniatura. No outro, todo decorado com motivos infantis e protegido com mini-cadeado, G. conta com orgulho que tem R$ 40,00, ganhos no seu trabalho.
Por trabalhar, ele pode ser enquadrado numa estatística: uma em cada seis crianças entram no mercado do trabalho antes de completar 15 anos, segundo pesquisa do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE). Filho de um engenheiro florestal e de uma advogada, G. é ator de teatro, também atua em comerciais de televisão e faz desfiles de moda. Diz que tudo o que recebe vai para uma caderneta de poupança e que já ajudou o pai, emprestando um pouco de dinheiro para a construção da suíte dele na futura casa da família.
Um dia normal para G. começa com um banho e a manhã é dividida entre as lições da escola (ele estuda na 7ª série de um colégio particular) e as brincadeiras com os amigos vizinhos. Após o almoço vai à escola e só dorme por volta das 22h, depois de fazer um pouco de lição, brincar ou passear na casa da vó. Todas as terças e quintas-feiras ensaia por duas horas num coral infantil. Aos sábados aprende a dançar tango e vai voltar a praticar natação - parei porque ficou frio.
Profissional O pai conta que, a partir dos 3 anos de idade, G. adorava ver televisão. Apontava para a tela e falava que queria entrar no Castelo Rá-Tim-Bum (programa infantil da TV Cultura de São Paulo). Há dois anos começou a atuar, primeiro com publicidade, depois no teatro. Pela segunda vez, se reveza com outro colega no papel principal de uma peça infantil. Na atual temporada, que completa um mês neste final de semana, G. subiu ao palco em dois finais de semana. Sem revelar o quanto o filho recebe com os cachês, o pai diz que ele tem consciência do valor do dinheiro.
Mas, com este perfil, G. está afastado de outra estatística: 601 meninos trabalham nas ruas de Curitiba, de acordo com os cadastrados da Secretaria Municipal da Criança do mês de setembro (leia mais detalhes ao lado) . Com dois anos de profissão, G. revela que, em pelo menos um dia pensou em não trabalhar para poder ficar em casa brincando com os irmãos mais velhos, (filhos do primeiro casamento do pai). Uma da poucas decepções até agora foi não poder andar em alguns dos brinquedos dos parques da Disney World (EUA) por causa do tamanho. É claro que ele também fica decepcionado se não passa em algum teste para fazer um comercial afirma o pai.
Amante de bichos do lindo Kripton (um cachorro da raça boxer) e da tartaruguinha Ploft G. diz que gostaria de ser ator, veterinário ou engenheiro florestal. O pai garante que G. continua na carreira artística até que as atividades extras não atrapalhem os estudos. Ele reprova a opção pela engenharia e aposta que o garoto vai mesmo cuidar de animais. Aos três anos ele já pegava galinhas no colo com a maior naturalidade. (R.B.N.)





