Ednelson Alves
De Londrina
Especial para a Folha
Um mundo de saudades separa os pais dekasseguis que trabalham no Japão dos filhos que ficaram no Brasil. Além da distância - e também por causa dela - inúmeros problemas de família surgiram ao longo dos anos de separação. Numa data tradicional para os brasileiros como o ‘‘Dia dos Pais’’, a saudade - ou a revolta dos que ‘‘perderam’’ o pai - bate ainda mais forte.
Estudos mostram que o fenômeno dos dekasseguis, que na mais simplista das traduções significa ‘‘aquele que vai trabalhar fora’’, começou em 1985 e cresceu ao longo da década de 90, principalmente após a mudança da lei de imigração no Japão, que beneficiou os descendentes de japoneses, esposas, maridos e filhos, ampliando o leque de trabalhadores. A imigração em massa colocou em xeque a tradicional educação japonesa.
A grande atração para essa aventura do outro lado do mundo é a diferença dos salários pagos no Brasil e no Japão. ‘‘Nós devolvemos em 10 anos a quantidade de gente que veio do Japão para o Brasil em 90 anos.’’ Essa comparação foi feita pelo presidente do Centro para Informação e Apoio ao Trabalhador no Exterior (Ciate), Masato Nimomiya.
O ano de 1997 ainda é tido como um ano de ouro para o ganho dos dekasseguis: estima-se que havia no Japão 207 mil brasileiros, que chegaram a enviar, anualmente, mais de US$ 3 bilhões em remessas. A quantia caiu para US$ 1,7 bilhão, o que é considerado um volume de recursos ainda bastante significativo.
Levantamentos feitos por entidades ligadas aos dekasseguis sobre as causas que provocariam a quebra de comunicação entre o trabalhador que foi para o Japão e a família que ficou no Brasil revelam que as causas mais comuns são problemas de saúde ou com a polícia, postos de telefonia distantes ou mudanças de endereço.
Na maioria dos casos, porém, o motivo é outro. ‘‘Em quase 90% dos casos que acompanhamos, o que aconteceu foi um rompimento com a família’’, afirma Nélson Watanabe, do jornal Tudo Bem, editado nos dois países. O que geralmente ocorre é o marido arranjar outra mulher no Japão, mas há também casos de desaparecimentos de esposas, filhos e até pais.
‘‘Todos estamos sujeitos a mudanças. O grave é essas pessoas não assumirem o que fazem, deixando seus dependentes em situação incerta, até mesmo juridicamente’’, diz o terapeuta Décio Nakagawa.
Para os estudiosos do fenônemo dekassegui há algumas incógnitas em relação ao futuro: a primeira delas diz respeito ao vínculo que os trabalhadores vão adquirindo com o Japão, nem tanto pela cultura em si, mas pela dependência econômica, já que não existem oportunidades para se ganhar o mesmo no mercado brasileiro. Esse seria o motivador da permanência cada vez mais prolongada naquele país.
A outro incógnita é saber se a economia japonesa continuará oferecendo as mesmas oportunidades de trabalho nos próximos anos. A única certeza nessa discussão é de que a família nipo-brasileira nunca mais foi a mesma depois que começou essa viagem de volta. Valores e décadas de tradição caíram por terra no Japão da modernidade. Os mais antigos não conseguem entender e nem aceitam tanta mudança em apenas 10 anos.Famílias de dekasseguis são as que mais sentem a ausência dos parentes que viajaram ao Japão para trabalhar
Fotos Ednelson AlvesJosé Fumio Nakamura, cinco anos longe do filhoPaulo Shigueru Tukazaki: saudade do casal de filhosRicardo Cardoso Mizokami tem o pai no Japão há seis anos e conversa com ele pelo uma vez por mês, por telefone: ‘‘Sei que ele trabalha duro lá para proporcionar melhor condição de vida para nós’’

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