Trabalho demais, sono de menos
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sexta-feira, 10 de agosto de 2012
Silvana Leão <br> Reportagem Local 
Nos últimos anos, a professora Ana Cecília Gonzalez, 56 anos, intensificou suas atividades profissionais e domiciliares. Passou a dar aulas em duas escolas públicas e assumiu a função de diretora auxiliar em uma grande instituição particular, ao mesmo tempo em que deixou de ter empregada doméstica. Resultado: as horas de sono foram reduzidas e os cochilos involuntários tornaram-se comuns na vida da educadora. Basta desalerar o ritmo para ser tomada por um sono incontrolável, a qualquer hora do dia.
Atividades como assistir a filmes na TV ou no cinema, sentar ao redor de uma mesa para bater papo com familiares ou ler um livro que não trate de assuntos de trabalho funcionam como um chamariz para a vontade de dormir. ''Se eu estiver em atividade, correndo para lá e para cá, não sinto sono. Mas se eu parar, durmo'', admite a professora, que planeja trabalhar menos a partir do ano que vem.
Ana Cecília ilustra um comportamento comum nos dias de hoje, em que as pessoas gastam cada vez mais tempo no trânsito, têm dupla ou tripla jornada de trabalho e estão sempre cheias de compromissos. O tempo para dormir, por outro lado, é cada vez menor.
Só na cidade de São Paulo, de acordo com pesquisa realizada pelo Instituto do Sono da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp), 82% da população têm pelo menos uma queixa relacionada ao assunto. Em muitos casos, os problemas são originados por maus hábitos ou, simplesmente, porque não se dá a devida atenção a um período que serve, antes de mais nada, para o organismo se recuperar dos esforços feitos ao longo do dia.
''Inúmeros estudos apontam para um grande aumento dos casos de distúrbios do sono no Brasil'', informa o professor doutor Marco Túlio de Mello, coordenador do Centro de Estudos em Psicobiologia e Exercício (Cepe) e responsável pela disciplina de Medicina e Biologia do Sono do Departamento de Psicobiologia da da Unifesp. Ele revela que a privação e a restrição do sono, seja por atividades sociais, trabalho ou estudos, tornou-se um grande problema dos dias atuais. ''Aumentamos muito nossas atividades durante o período em que ficamos acordados, e isso tem prejudicado bastante o restabelecimento do nosso organismo'', acrescenta o pesquisador.
Longevidade
Segundo Mello, dormir bem é importante para a qualidade de vida e longevidade porque é durante as fases do sono que recuperamos a parte de cognição e músculos. ''Durante o sono delta o organismo faz a recuperação física e o sono REM (sigla de Rapid Eye Movement, ou Movimento Rápido dos Olhos) vai ajudar na parte cognitiva, de memória.'' Ele explica que um sinal de que dormimos bem é quando, no dia seguinte, não estamos com sono ou irritados. ''É quando temos um bom dia sem perceber que tivemos que dormir para ter um bom dia'', define o professor.
Ao contrário do que muitos pensam, a quantidade necessária de sono por noite varia de uma pessoa para outra. Segundo Mello, a ideia de que todos precisam dormir oito horas por noite é um mito. ''A média de sono da população é de sete horas e 40 minutos, mas algumas pessoas, que chamamos de curto dormidoras, precisam dormir menos de seis horas e meia. Outros, com quatro horas e meia ou cinco horas sentem-se bem e passam por todas as fases do sono. Da mesma forma há o longo dormidor, que precisa de mais de nove horas de descanso. Isso é genético, trata-se de uma característica biológica da pessoa, não muda'', esclarece o pesquisador.
Imunidade baixa
A neurologista Mônica Marcos de Souza, responsável pelo Laboratório do Sono, em Londrina, alerta que são necessários dois dias para repor uma noite mal dormida. Além da constante sensação de sonolência ao longo do dia, ela lembra que dormir pouco pode resultar em irritação, lapsos de memória, dor de cabeça, hipertensão e dificuldade de concentração. ''Como o processamento do ciclo do sono está alterado, a imunidade é prejudicada e podem surgir também doenças infecciosas e neoplasias, além de alterações hormonais no eixo hipotálamo/glândulas suprarrenais'', completa.
De acordo com a médica, que tem doutorado nesta área de estudo, as pessoas que trabalham em diferentes turnos também têm a saúde prejudicada, pois a falta de ritmo causa confusão cerebral. Aqueles que sacrificam preciosas horas de sono diariamente também sentirão os efeitos negativos, com o tempo, mesmo que acreditem ter 'se acostumado' a dormir menos.
Já para os que trabalham durante a noite, o sono diurno só terá o mesmo poder reparador, segundo Mônica, se o ambiente reproduzir as mesmas condições de temperatura e ausência de luminosidade e barulho que caracterizam o sono noturno. Por fim, a neurologista reforça que o ideal é que se durma sempre no mesmo horário e respeitando o próprio ritmo e necessidades. ''O sono é considerado um dos indicadores de qualidade de vida pela Organização Mundial da Saúde (OMS).''



