''Trabalho de homem''
PUBLICAÇÃO
domingo, 07 de março de 2004
Janaina Garcia<br> Reportagem Local 
Tão difícil quanto encontrar o feminino de torneiro nos dicionários da língua portuguesa, é encontrar uma mulher que exerça essa profissão em Londrina. Um torneiro mecânico famoso, Luiz Inácio Lula da Silva, ocupa outro cargo onde também não se viu mulher até hoje - o de Presidência da República. Constatações como essas fazem de hoje, Dia Internacional da Mulher, uma data para reflexão.
Se na prestação de serviços não ficam dúvidas quanto à participação das mulheres, em setores como metalurgia, transporte e construção civil elas ainda têm um longo percurso pela frente no que diz respeito à igualdade de oportunidades. Segundo o presidente do Sindicato da Construção Civil de Londrina (Sinduscon), José Roberto Hoffmann, hoje há uma mulher para cada 300 homens na atividade. O motivo, ele garante, não é falta de competência. ''O trabalho é muito pesado e elas não o procuram. Acho que vai demorar um pouco para a mão-de-obra feminina entrar nessa fatia do mercado, mas quem vier será bem-vinda'', conclui.
A disparidade também marca o setor de metalurgia na cidade, com 80% da força de trabalho concentrada nos homens. Quem afirma é o presidente do Sindicato das Indústrias Metalúrgicas e de Material Elétrico, Sebastião Silva. ''Algumas atividades requerem muita força física. Talvez por isso não tenhamos aqui soldadoras, caldeireiras ou mesmo torneiras mecânicas'', avaliou, ao considerar que ''não se pode exigir que uma mulher faça o mesmo serviço de um homem''.
O panorama não é muito diferente na área de transportes rodoviários. De acordo com o presidente do sindicato que representa os empregados da categoria, João Batista da Silva, não existe hoje na região (o órgão abrange 73 municípios) nenhuma mulher motorista de ônibus de linha. No caso de viagens interestaduais, então, a separação é ainda maior. ''A rotina é muito árdua, com uma noite dormida em casa para duas fora dela. E talvez isso não seja muito apropriado às mulheres, que, além do ciclo menstrual, também têm casa e filhos com que se procupar'', justificou.
Já no Corpo de Bombeiros da Polícia Militar, mesmo que procurem, não é tão cedo que elas vão encontrar uma vaga. A Corporação no Paraná, até hoje não registrou nenhuma bombeira em seu quadro. ''Não adianta abrir concurso para elas se não temos alojamentos adequados'', admite o tenente Ezequias de Paula Natal.
Se em algumas profissões há um número ínfimo de trabalhadoras eletricistas, por exemplo , em outras, algumas iniciativas parecem estar mudando as perspectivas. Uma delas é a da empresa de transporte urbano Brasspress, de São Paulo (SP), que tem 120 motoristas mulheres em todo o País, das quais duas são de Londrina. A preferência da contratação, afirma o grupo, vai para elas. ''São mais cuidadosas que os homens'', comentou o gerente Wanderley Edson Fernandes.
Inseridas parcial ou totalmente no mercado, as mulheres ainda sofrem com alguns mitos antigos, considera a secretária municipal da Mulher, Maria José Barbosa. ''Um deles é o da força física. As mulheres são solidárias e, se estão sozinhas, se ajudam. Mas a igualdade também tem que existir no salário pois muitas ainda ganham menos que os homens pelas mesmas atividades. Conquistamos espaço, mas a luta é contínua''.


