Trabalho busca o corredor da doença
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quarta-feira, 20 de abril de 2005
Francismar Lemes<br>Fotos: Dorico da Silva 
Encontrados no continente e ilhas do Paranazão, os bugios são capturados em gaiolas instaladas em árvores de até 15 metros de altura, que obriga os pequisadores do trabalho de vigilância à febre amarela a dominarem técnicas de arvorismo. Para capturar os macacos-pregos, que habitam as faixas continentais do Paraná (PR) e do Mato Grosso do Sul (MS), os cientistas armam armadilhas no solo.
Três semanas por mês, a mata é a sala de casa do casal de biólogos Gabriela Ludwig e Lucas de Moraes Aguiar, que recebe a visita dos primatas. ''Antes da coleta de dados, tivemos que fazer com que os animais se acostumassem com a nossa presença, aproveitando também para abrirmos trilhas no mato. Esse trabalho é fundamental para que eles se acostumem com a gente, tendo um comportamento mais natural possível'', explicou Gabriela, que passa o dia inteiro acompanhando um grupo de primatas, desde que acorda às 7 horas até a chegada do sono, às 17 horas.
A vigilância à febre amarela quer conhecer o comportamento dos macacos para explicar a existência ou não do corredor fluvial da febre amarela silvestre.
Passando ao largo da Mutum nesse etapa da pesquisa, já que o trabalho do biólogo Gustavo Monteiro Teixeira, que estudará o variabilidade genética dos primatas, só vai começar com a conclusão do levantamento de Gabriela e o namorado, descansaremos em suas opiniões, nos preparando para seguir em frente pelas trilhas da mata e as coletas de dados de Lucas.
''Particularmente não acredito que os macacos estejam levando o vírus de um estado ao outro. Por causa da pouca vegetação, as vezes, os bugios atravessam atrás de comida. Há relatos dos moradores da região sobre primata atravessando. Mas pelo mosaico de fragmentos de mata não acredito que essa via permitiria o deslocamento. Se percebermos que existe esse deslocamento, o ideal é que se faça vigilância para impedir que a febre amarela atinja a área urbana, com vacinação da população e bloqueio ao vírus'', afirmou Teixeira.
O leito de hipóteses levantadas por Teixeira correrá até que encontre os resultados das pesquisas de Gabriela e Lucas, biólogo que está fazendo a contagem dos primatas.
''Para que a vigilância possa capturar os animais, que serão examinados, é preciso conhecer uma estimativa da população. Através da densidade saberá se o vírus sobrevive nessa população'', disse Lucas.
Um dos primeiros resultados da contagem dos primatas revela que a densidade de bugios é alta. ''O bugio preto no Paraná está ameaçado de extinção'', acrescentou o biólogo, dizendo que para entender o fluxo de uma epizootia é preciso conhecer quais espécies e quantos estão distribuídos pela área, entre outros fatores.
Macaco que muito pula pelas árvores, confiando na destreza da cauda, o bugio se defende no grito. No alto é mais difícil ser apanhado por algum predador, como os felinos que estão voltando para as ilhas, desde que os ilhéus foram obrigados a deixar as áreas de preservação ambiental.
''Estamos encontrando rastros de grandes felinos. Nas fezes da sussuarana achamos indícios de que estão se alimentando de macacos. Isso significa que o ambiente está voltando ao equilíbrio'', avaliou Gabriela.
Enquanto observam os primatas, o casal também é visto por outros animais, não escapando de surpresas, como a de ficar no meio de um bando de porcos selvagens.
Mas no rio que dá pescadores, que às vezes desobedecem o período de pesca proibida, também navegam caçadores, havendo quem diga que alguns caçam macacos, não rejeitando pôr no prato a carne do primata, sem medo dos riscos para a saúde.
Pela Ilha Mutum, que ainda não explicou a morte de vários bugios, o grito do primata pode ser escutado indiferente à pesquisa, que inclui a preservação dos animais na corriqueira brincadeira da natureza em cima das árvores.
Ao entender porquê um macaco anda alguns quilômetros para dormir numa determinada árvore e o que os torna sociáveis ao ponto de enchergarmos semelhanças de comportamento entre os primatas, inclusive os humanos, a ciência tentará dar explicações sobre o fluxo da febre amarela.
A vigilância à doença segue pela correnteza do Paranazão ao passo que a Biologia ajuda a diminuir os elos do Planeta, que se impressiona com o comportamento de macacos diante da cria, protegida pela parentada ou ameaçada de infanticídio por um suposto pai, desconfiado da paternidade.
A Mutum e as outras ilhas do Rio Paraná ainda têm muitas coisas para contar ao continente sobre a febre, que ameaça as cidades, e também a respeito da vida dos primatas, rompendo novos elos, revelando a admiração do homem diante da Natureza.
''O que diferencia o humano do macaco é que eu estou preocupado com a preservação da outra espécie'', disse o biólogo Lucas, olhando para a Mutum dos bugios.


