Londrina – Furadeira, espátula de osso, cera de abelha, prensas de ferro, freezer, agulha de injeção e linha de pipa. Estes são alguns dos materiais e equipamentos utilizados pela equipe que realiza o serviço de reparo e restauração de livros na biblioteca central da Universidade Estadual de Londrina. Os exemplares danificados são encaminhados para uma sala reservada que funciona como uma espécie de "UTI" onde o material passa pelo olhar clínico do técnico em biblioteca, Valdir de Aguiar.
Nas estantes da sala de reparos, centenas de obras aguardam o diagnóstico. "Infelizmente, há alguns tipos de danos que não conseguimos reparar e o exemplar é descartado", lamentou Aguiar. Boa parte dos livros é armazenada com barbantes ao redor para evitar que as páginas soltas se percam durante o transporte dos exemplares. "A cola, geralmente, não aguenta. Dependendo de como os usuários manuseiam a obra, elas podem estragar com muita facilidade", afirmou.
O trabalho artesanal começa com a análise de cada uma das páginas dos exemplares. O profissional verifica os "sintomas": se há rabiscos no livro, recortes, rasgos, ausência de páginas, sujeira e até a presença de brocas, insetos que se alimentam de papel.
O "tratamento" é executado de acordo com a "doença". "Quando as páginas estão apenas soltas, o reparo é mais simples. Temos uma empresa terceirizada que encaderna, aproximadamente, 130 exemplares por mês, mas também fazemos isso de forma manual", destacou. A furadeira é utilizada cuidadosamente para perfurar as páginas. A cera de abelha é passada na linha de pipa para aumentar a resistência do material e o livro é costurado com a ajuda de uma agulha comum.
Já as páginas rasgadas são reparadas com técnicas de obturação e enxertia, além das colagens utilizando o papel japonês. "Com a agulha de injeção, nós desenhamos o contorno do rasgo em um isopor e conseguimos fazer o desenho exato do que precisa ser enxertado na página. Em outros casos, também trituramos papel no liquidificador para aplicar a técnica de obturação na página", detalhou o bibliotecário Osny Terciotti que trabalha no setor há 18 anos.

TRATAMENTO COMPLEXO
Páginas ausentes são copiadas de exemplares completos e encadernadas novamente na obra danificada. O processo de limpeza e restauração dos livros demora, em média, três dias para ser concluído, desde que o material esteja livre das brocas. A eliminação dos insetos depende de um "tratamento" mais complexo. Os livros são embalados a vácuo e colocados em um congelador durante 60 dias. Após esse período, eles são descongelados de forma natural e passam por uma limpeza na máquina de higienização a vácuo. "Com um pincel, limpamos página por página e a sujeira é sugada para a máquina. Depois o processo continua de acordo com o que precisa ser reparado", demonstrou Terciotti.
Após o atendimento especializado, o material retorna às mãos dos estudantes. Por mês, pelo menos 200 obras são encaminhadas para o setor de restauração da universidade. O número corresponde a, aproximadamente, 20% do total de exemplares cadastrados no Sistema de Bibliotecas da UEL, que está em torno de 265 mil. Na Semana Nacional do Livro e da Biblioteca, técnicas básicas de reparos serão ensinadas em uma oficina nesta quinta e sexta-feira na Biblioteca Central do campus. As dez vagas ofertadas já foram preenchidas e há cadastro na fila de espera.
"Quem olha o livro com as folhas soltas não acredita que ele possa recuperar o estado original. É gratificante saber que alguém vai usufruir do conteúdo desse material e que ele vai servir para a continuidade do progresso da ciência", ressaltou Terciotti. "É muito bom ver uma pessoa procurando por um livro que você acabou de restaurar. Há muitos casos em que o aluno usa o livro como assento no banco do ponto de ônibus ou para se proteger da chuva. Os usuários precisam ter mais cuidado. Há exemplares únicos aqui", alertou Aguiar.

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