Trabalhadores foram vítimas de 20 crimes
PUBLICAÇÃO
sábado, 26 de outubro de 2002
Renê Muller<br> Reportagem Local 
O aposentado Manoel Carlos, 83 anos, passou por boas durante sua vida. Dizia à família que, ao atravessar uma cerca no campo, anos atrás, foi atingido por um raio, e ficou dois dias desacordado. Foi atropelado duas vezes. Numa delas, nos Cinco Conjuntos, um ônibus passou por cima dele. Por sorte, a saúde do aposentado era de ferro. Nem uma gripezinha pegava. Viúvo, ainda tinha seus amores e fazia seu trabalho como vigilante ou executando serviços gerais.
Em 27 de maio foi atingido por uma bala, numa troca de tiros envolvendo uma dupla de assaltantes e um segurança particular que transportava valores, em frente ao Terminal Urbano. Levado para o Hospital Universitário, não resistiu. ''O 'velho' era o bicho'', diz Marcio Luís Pedreiro, 27 anos, comerciante e neto do aposentado. ''Tinha seus casos amorosos, esbanjava bom-humor e aproveitava a vida''.
Mas acabou sendo mais uma vítima do crime em Londrina. Crime esse que não escolhe cor, idade, raça e religião. Embora a grande parte dos 117 homicídios registrados em 2002 tenha como motivo as drogas, e vitimado adultos e menores com antecedentes criminais, por vezes custaram a vida de gente que fazia o seu trabalho ou mesmo estava no lugar errado, na hora errada, como seo Manoel. Um levantamento feito pela Folha contabilizou 20 assassinatos que se enquadram nessa categoria. Desses, dez teriam sido latrocínios, quatro crimes passionais. Os demais têm natureza diversa. Ainda existem outros seis com motivos indefinidos.
Márcio diz que a família não pretende esquecer o caso, e que estuda processar a empresa que fazia o transporte dos valores. O próprio comerciante diz que, há poucos dias, esteve na mesma situação de Manoel, na Avenida Tiradentes. ''Vi uma dupla assaltar um transporte de valores e fugir. Se alguém reagisse, iria sobrar tiro. Poderia estar na mesma situação do meu avô'', assusta-se.
Tanto ele como o empresário do ramo têxtil Eudaldo de Oliveira, 52 anos, preocupam-se com a onda de crimes. Parece São Paulo, ou Rio de Janeiro, dizem. ''Moro em Londrina há quase 50 anos, e conheço a cidade como poucos. Hoje, ela está entregue aos bandidos'', acredita o empresário. Há um mês, ele perdeu o filho Rafael de Oliveira, 20 anos, em um assalto à boate executiva The Bar. O rapaz era sócio-gerente do local.
Rafael queria prestar vestibular para Engenharia na Universidade Estadual de Londrina (UEL) e preocupava-se com a filhinha de quatro meses. Começou a gerenciar no local devido à dificuldade de conseguir outro emprego, pensando na criação da menina e na realização dos próprios sonhos. Mas foi morto, segundo o pai, ''como se mata um bicho''. ''Tenho seis filhos, mas não pense que ter os outros ainda comigo é um consolo. Preferia que eu tivesse morrido no lugar dele'', confessa Oliveira.
Após a morte do filho, Eudaldo tentou mobilizar outras famílias vítimas da violência. Divulgou até mesmo seu telefone em rádios, tevês e jornais. O retorno foi pequeno. ''Eu queria mobilizar umas cinquenta famílias, mas recebi poucos telefonemas'', lamenta o empresário. ''A população tem medo que os criminosos acabem fazendo algum tipo de retaliação''.
Esse é o caso da família do taxista Nelson Dias Paião, 59 anos, morto a facadas em 15 de julho passado. Tanto a viúva Maria Aparecida como Emilia, uma das duas filhas do taxista, estão amedrontadas. Têm medo de aparecer em fotos, ou mesmo de dilvulgar o endereço da casa simples, mas impecavelmente organizada, que foi lar da união de 34 anos do casal.
O último dia 21 foi de tristeza. Seria o aniversário do matrimônio e do próprio taxista. ''Não poderia pedir um pai e um avô melhor para meus filhos e netos'', diz dona Cida. Nelson era dedicado à profissão. Trabalhava de segunda à segunda. De madrugada, já estava de pé para o trabalho. Mesmo assim, guardava tempo para os seus dois xodós, as netinhas Caroline, 6 anos, e Rafaela, 5. ''Elas eram a vida dele'', conta a viúva.
O taxista trabalhou o domingo inteiro. Já era segunda-feira quando chegou em casa. Descansou, curtiu as netinhas, e de noite voltou para o volante. Saiu para não voltar. ''A neta mais nova agora quer ser polícia, para matar ladrões como os que mataram o avô'', conta dona Cida. A filha Emília não se conforma com a menoridade de um dos assassinos do pai, capturados no dia posterior à ação criminosa. ''Ele tinha 16 anos, mas matou do mesmo jeito que mataria se tivesse 21. Em menos de um ano, pode estar de volta às ruas'', revolta-se.
Jurandir Gonçalves André, delegado-adjundo da 10 SDP, diz que a Polícia Civil da cidade não mantém estatísticas separando tipos e motivos de crimes de morte. Os homicídios estão catalogados de acordo com o local onde ocorreram. Pode a vítima ter ou não ter antecedentes criminais, estar ou não sob investigação policial, o crime precisa ser investigado da mesma maneira. ''Para a polícia, não existe diferenças. Mesmo uma pessoa envolvida em crimes pode ser resgatada e produtiva para a sociedade. Caso priorizássemos investigações pelo histórico da vítima, estaríamos regredindo no tempo'', justifica o delegado.


