Trabalhadores convivem com a violência
Trabalhadores convivem com a violência
Vigilantes, bancários, motoristas e cobradores de ônibus enfrentam a violência em seu cotidiano
Ousadia dos ladrões é
tão grande que eles
chegam a avisar que
voltam no dia seguinte
Mauro Frasson
InsegurançaMorte de Bernardino foi só a gota dágua: profissionais trabalham em contato permane nte com perigoIsrael Reinstein
A falta de segurança no transporte coletivo de Curitiba e Região Metropolitana tornou-se latente com a morte do cobrador Bernardino Alves Melo, na última terça-feira. Os frequentes assaltos - 1.566, até a última sexta-feira - e os ataques de vândalos aos ônibus tornaram-se rotina na vida desses profissionais. A situação é tão grave que muitos motoristas torcem para não serem escalados em linhas consideradas de alta periculosidade. No ano passado morreram dois cobradores e ficaram feridos 25 cobradores e motoristas, apenas em Curitiba.
Ao todo existem mais de 60 pontos críticos na capital e Região Metropolitana. Segundo o presidente do Sindimoc, Denilson Pires, há pelo menos um ponto crítico em cada bairro da cidade. Em bairros mais distantes, o perigo aumenta. São locais onde roubos e assaltos acontecem com maior frequência, muitas vezes de forma anunciada. A ousadia dos ladrões é tamanha que eles avisam que voltam no dia seguinte.
Denilson Pires afirma que o modus operandi dos assaltantes de ônibus segue um determinado padrão. A maioria dos roubos noturnos acontece nos últimso três pontos, quando o número de pessoas dentro do carro é menor, conta. Durante o dia, o que predomina são punguistas, que roubam passageiros, e os garotos de ruas, que investem contra os cobradores de estações-tubo ou depredam ônibus e estações.
O delegado Marcus Michelotto, responsável pela prisão dos acusados pelo assassinato do cobrador Bernardino Alves Melo, diz que quem pratica este tipo de crime tem um perfil definido. São jovens ou desempregados, muitos menores de idade, que buscam dinheiro para comprar drogas. Os supostos assassinos, o menor M.A.S., 17 anos, e Léo Henrique Dias, 23 anos, usaram os R$ 50 do roubo para comprar crack. Michelotto considera que é difícil de lidar com este tipo de assaltante no momento do roubo. Eles agem por impulso, porque em muitos casos já estão drogados, comenta. A grande violência deles também pode ser atribuída ao convívio com outros presos. No caso de Bernardino, os dois já têm passagem pela polícia. O menor, por dois assaltos a ônibus, e Léo por roubo de carro.
Segurança - A cobradora Zoirine Oliveira, que trabalha na linha Uberaba, diz que existem diversos pontos falhos na segurança dos ônibus. À noite, os cobradores ficam expostos no último do turno com dinheiro na mão, que deve ser levado para a garagem. É nesses momentos que as quadrilhas atuam, comenta. Outro problema são os cofres de segurança. O ladrão muitas vezes não entende que não temos a chave e fica nos ameaçando ou agredindo, diz ela, assaltada três vezes.
O motorista Jorge Balbino, da linha Canal Belém, conta que um colega, cobrador da linha Barrerinha, ficou por mais de meia hora sob a mira de um revólver. Como os ladrões não conseguiam arrombar o cofre, eles rodaram toda a cidade, até chegar num ponto onde roubaram ferramentas de uma oficina, abrindo o cofre, diz.
Para o motorista Ademir Antônio Bertagi, a violência nos assaltos a ônibus pode ser atribuída em parte à falta de interesse da polícia. Ela agem apenas nos casos graves, reclama. Ele considera que mortes como de Bernardino poderiam ser evitadas. O patrulhamento que está acontencendo hoje e que é realizado nos dias de jogos deveria ser feito todos os dias, reclama.





