Trabalhador tenta provar na Justiça que não deve R$ 6 mi
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terça-feira, 03 de dezembro de 1996
Paulo Ubiratan 
O trabalhador Lauro dos Santos, 51 anos, está desesperado e não sabe o que vai fazer diante de uma dívida de R$ 6 milhões que o banco Banestado está lhe cobrando na Justiça. A dívida é da empresa Kraw Shopp - Comércio Atacadista de Subprodutos de Origem Animal Ltda, da qual Mauro dos Santos consta como proprietário.
Como posso ser dono de empresa se não tenho onde cair morto?, questiona. Ele trabalha no frigorífico São Judas Tadeu como faqueiro (retalhador de bois) e ganha cerca de dois salários mínimos. Lauro Santos não sabe quem falsificou sua assinatura e conseguiu cópia de seus documentos para registrar a Kraw Shopp em seu nome, na Junta Comercial e na Receita Estadual, conforme CGC 97.375398-001/829. O processo tramita há dois anos na Justiça. Em agosto do ano passado, a Folha denunciou o caso.
Na época, a gerente de negócios da agência Ouro Verde do Banestado, Marisa Corte Ribeiro, foi acusada como responsável pelos empréstimos e afastada do banco. A reportagem procurou Marisa Ribeiro, mas ela disse que somente vai se pronunciar após falar com seu advogado. Além das ações que correm na Justiça Comum, foi aberto inquérito na Polícia Federal, pois o crime caracteriza-se como o golpe do colarinho branco.
O faqueiro diz que está impossibilitado de fazer compra a prazo, movimentar conta bancária ou gerir qualquer negócio que envolva seu nome. A maior precupação de Lauro dos Santos é perder sua casa popular, o único patrimônio que possui, comprado ao longo de 30 anos de trabalho. O valor de sua casa não passa de R$ 20 mil, mas ele ressalta que para o banco não perder tudo é capaz de tirar-lhe o patrimônio. As execuções contra o trabalhador tramitam nas 10ª e 9ª Varas Cíveis. Amanhã à tarde haverá audiência na 9ª Vara Cível.
A via-crucis de Lauro dos Santos começou no início de 1994, quando ficou sabendo que a empresa de sua propriedade era devedora do Banestado. Ele afirma que até receber a intimação judicial para pagar a dívida, nunca havia ouvido falar da Kraw Shopp e que em toda a sua vida nunca pediu empréstimo a banco nenhum. Sou pobre, não tenho nada que cubra seis milhões de reais, como um gerente poderia me dar esse crédito?, questiona. Ele também afirma que nunca conheceu Mariza Pinheiro. A ex-gerente, em seu depoimento de defesa, não confirmou se conhece Lauro dos Santos.
Ele diz estar revoltado porque de nada adiantou tentar mostrar que é pobre, o que foi comprovado pela auditoria do banco, conforme consta nos dois processos. Os auditores do Banestado Nilton Magnabosco e João Fernandes de Souza, e o gerente de departamento Domingos Matias, no relatório que fizeram à diretoria do banco, chegaram a admitir a inocência de Lauro dos Santos, denunciando proprietários de um frigorífico, cujos nomes estão sendo mantidos em sigilo.


