Torrefadoras apresentam justificativas
A quase totalidade das empresas torrefadoras de café que aparecem na lista da Abic como fraudadoras do produto se defende acusando a associação de querer prejudicar os pequenos torrefadores. ‘‘Há manipulação por parte da Abic nessas análises. O estranho é que só são acusadas as pequenas empresas’’, afirma o sócio-gerente da Fatcafé Torrefadora e Moageira de Café Ltda., Ricardo Gomes dos Santos.
Segundo Santos, a empresa tinha o selo de pureza na marca Olicafé até 1994, quando, por problemas financeiros, suspendeu o pagamento da taxa de manutenção cobrada pela Abic. ‘‘A quantidade era pequena e o custo do selo era alto, então concluímos que não compensava’’, afirma. Agora, segundo ele, a empresa tem um selo de qualidade próprio e faz análises periódicas do café na Universidade Estadual de Londrina.
Santos diz que, superado o período de dificuldade, a empresa voltou a crescer e passou a ser ‘‘pressionada’’ para voltar a ter o selo. ‘‘Começamos a entrar no mercado de Curitiba e incomodar as grandes indústrias, daí a Abic começou a pegar no nosso p钒, comenta. Santos diz nunca ter adulterado o seu produto.
A direção do Café Platinense Ltda., de Santo Antonio da Platina, também alega que a Abic ‘‘só procura atingir indústrias pequenas e com a notória intenção de abrir mercado para grandes torrefadoras’’. A Vitagrano Indústria e Comércio, de Campo Largo, diz que a Abic não podia ter divulgado o resultado da análise porque, segundo o proprietário da empresa, que se identificou apenas como Laércio, a contraprova não apresentou adulteração. ‘‘Nos temos uma liminar concedida pela Justiça que impedia a divulgação do resultado’’, afirma Laércio.
O proprietário da Agro Industrial Mercosul Ltda., que se identificou como José Cândido, alega que a amostra analisada pela Abic era de produto de outra torrefadora. ‘‘Já estamos entrando na Justiça com pedido de liminar para voltarmos a ter direito de utilizar o selo’’, diz.
O proprietário da marca Apucafé, Cláudio Mareze, disse que a análise feita pelo IAL a pedido da Abic não é válida por ser feita por amostragem. Ele nega que tenha feito qualquer mistura ao seu produto. Segundo ele, sua empresa produz um café que leva o selo de pureza da Abic. Ele alegou que o produto acusado de ter mistura é feito com café baixo, mas sem mistura.
Outra torrefadora que alega problemas financeiros é a Previssafra Indústria de Alimentos Ltda., de Cambé, que produz o Café Londres. Segundo o proprietário da empresa, Antonio Silva Prevital, a torrefadora não conta com uma máquina que limpa o café e, na época que a amostra foi colhida, o preço da matéria-prima estava em alta, obrigando-o a comprar café de qualidade inferior.
A Torrefadora de Café Rainha do Oeste Ltda., de Altônia, informa que o problema com o café da marca Da Colônia foi provocado por ‘‘erros da administração passada’’. Segundo o sócio-proprietário Haroldo Faria Vianna, a nova direção assumiu a empresa há pouco mais de um mês.
A torrefadora A.Valarini & Cia. Ltda. informa que o problema de adulteração aconteceu ‘‘apenas’’ com a marca Cianorte e não com o café Pingado. Segundo o proprietário da empresa, Valdir Romano, o problema foi provocado por um ‘‘lapso’’. ‘‘Nós pegamos o produto de terceiros e vendemos com a nossa marca’’.
A Sperafico Alimentos Ltda., da marca Dona Olinda, de Toledo, também teve problema semelhante. Segundo o proprietário, o deputado Dilceu João Sperafico (PPB), os equipamentos da indústria apresentaram defeito e, para não deixar de cumprir contratos de entrega, ela se abasteceu com café de terceiros.
O advogado da Abic, Alexandre Lima, afirma que a desculpa de que o produto foi adquirido junto a terceiros não isenta as indústrias da responsabilidade. Ele observa que o Artigo 12 do Código de Defesa do Consumidor diz que o fabricante deve responder pela matéria-prima que utiliza em seus produtos.
A Folha procurou ouvir todas as indústrias acusadas, mas não obteve respostas do Café Ouro Verde Ltda., de Umuarama. Na Torrefadora e Moageira de Café Pomposo Ltda., de Cornélio Procópio, a reportagem foi informada por um funcionário, que se identificou como Nelson Cicarelli, que a empresa havia encerrado suas atividades 15 dias antes. (G.R.)

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