TORMENTO - Barulheira urbana: salve-se quem puder
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segunda-feira, 07 de abril de 2008
Gisele Mendonça<br>Reportagem Local 
Igrejas que inventam cultos de madrugada. Algazarras em torno de bares, clubes e boates encravados em bairros residenciais. Conjunto de casas rodeado por indústrias com maquinários ligados o tempo todo. Vizinhos prolongando a sua festa até às 5 horas da manhã sem se importar se existe alguém querendo dormir.
Salve-se quem puder. Apesar de ainda conservar ares interioranos, Londrina é, sim, uma cidade muito barulhenta. Basta dar uma checada nos órgãos de fiscalização para descobrir que o problema está por toda parte. As reclamações vêm de diversas regiões da cidade.
''Londrina, infelizmente, é muito mal planejada. Tem problemas sérios de alteração de zoneamento para beneficiar certas atividades que acabam contribuindo para que a população sofra com a poluição sonora'', aponta a promotora de Defesa do Meio Ambiente, Solange Vicentin.
Por semana, a promotoria recebe, no mínimo, duas reclamações de barulhos urbanos dos mais diferentes gêneros - vale ressaltar que no mesmo período dezenas de outras queixas chegam à Prefeitura, à polícia e à regional do Instituto Ambiental do Paraná (IAP). ''Por causa de alterações de zoneamento e das chamadas regiões mistas, em Londrina parede e meia com você pode ter uma fábrica. Há casos em que a indústria chegou depois mas, muitas vezes, foi permitido que a população se concentrasse no entorno'', observa a promotora.
Por outro lado, há bares, clubes e boates encravados entre casas e prédios residenciais, principalmente na Região Central. E é daí, segundo Solange Vicentin, que vêm mais de 90% das reclamações de poluição sonora. Ela deixa claro que o problema ''não está exclusivamente na música'', mas na ''algazarra e gritaria'' por conta da movimentação de pessoas ao redor desses estabelecimentos.
Não bastasse, há muitas repúblicas de estudantes que transformam-se em verdadeiras boates, causando o mesmo tipo de problema. O que se percebe, além da falta de bom-senso de parte dos frequentadores da ''balada'', é uma mudança no comportamento dos jovens. ''Hoje, muito mais jovens moram sozinhos (em repúblicas), saem quase todos os dias da semana, bebem mais'', pondera a promotora.
Quem quer o merecido sossego reclama aos órgãos competentes. Mas já deve esperar que o atendimento nem sempre vai ocorrer. O problema é que a administração municipal não tem estrutura suficiente para dar conta da quantidade de queixas geradas pela barulheira urbana. ''A Prefeitura tem quatro fiscais, mas só dois trabalham à noite. O IAP não tem fiscal noturno. A Polícia (Militar), quando solicitada, nem sempre pode ir até o local atender a reclamação de barulho. Assim fica difícil averiguar um número indiscriminado de queixas'', observa a promotora.
É neste sentido, segundo Solange, que a aprovação da Lei Seca seria benéfica para Londrina. ''Limitando o número de atividades à noite, teremos mais condições de fiscalizar e amenizar os problemas'', diz. Aos contrários à proposta, ela responde: ''Não é que devemos voltar a ser provincianos. A cidade precisa amadurecer e estabelecer regras em relação às atividades noturnas. E a solução não é só isolar o barulho interior. Em São Paulo, por exemplo, a legislação diz que ninguém pode funcionar a partir da 1 hora da manhã se não tiver isolamento acústico, estacionamento e seguranças próprios.''
Em relação aos problemas de zoneamento, que acabam gerando queixas de poluição sonora por toda a cidade, o ideal é que a população não deixe o assunto passar batido nas discussões do Plano Diretor. ''Londrina tem que estar muito atenta e não permitir mais as alterações de zoneamento que beneficiam particulares em detrimento aos interesses comuns'', afirma.


