Campo Mourão Aquela quarta-feira era especial para Ademar. Ele levantou mais cedo do que de costume e, ao invés do café, preparou um feijão com arroz, uma abobrinha refogada e uma salada de tomate. Ajeitou tudo numa caçarola e a enrolou num pano de prato. Só depois sentou para comer duas fatias de pão com margarina.
Ademar amarrou a panela na garupa da bicicleta e, antes de sair, foi em silêncio ao quarto. À mulher, ainda sonolenta com o sol que mal começara a raiar, disse que não voltaria para almoçar e que ela poderia ficar sossegada. ''Tenho aquele compromisso às 17 horas'', sussurrou. Maria só resmungou: ''Você não tem jeito, hein Ademar?''.
Pedreiro conhecido na periferia da cidade, Ademar teve até que mudar o modo de trabalhar naquele dia. Tudo para estar liberado, no máximo, até às 16h20. Por isso, não poderia perder tempo indo almoçar em casa. Aliás, almoçou rápido, sentado numa pilha de tijolos. A comida estava fria, mas Ademar nem prestou atenção no detalhe.
Não havia tempo nem para uma cochiladinha após o almoço. Ademar voltou logo ao batente. Era uma corrida contra o tempo. Como precisava sair mais cedo, preparou uma quantidade menor de massa. Mas manteve a mesma concentração e preciosimo de sempre na hora de assentar os tijolos. Isso sem contar a agilidade na tarefa.
Às 16 horas, Ademar já estava exausto. Guardou os materiais, dispensou o servente, pegou o radinho de pilhas que costumava deixar na obra e correu em direção ao Estádio Municipal Roberto Brzezinski. Após 10 anos, Ademar iria ver novamente um jogo pela primeira divisão do Campeonato Paranaense.
Ademar aplaudiu a entrada do time da casa, vaiou o adversário e mandou ''recados'' ao trio de arbitragem. Tudo grudadinho no alambrado. Cobrou substituições ao técnico, xingou o juiz por causa de dois gols anulados, quase teve um ''troço'' com as duas bolas na trave e pulou de alegria com o gol da vitória no último minuto. Depois, voltou para casa feliz da vida. E certo de que torcer no futebol a gente nunca esquece.

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