Toneladas de perigo nas estradas
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segunda-feira, 06 de outubro de 2008
Marcela Rocha Mendes<br> Equipe da Folha 
Curitiba - Nos primeiros oito meses deste ano as rodovias federais que cruzam o Estado registraram 1.709 acidentes envolvendo veículos de cargas. O número corresponde a 35% do total de acidentes. Por causa desses acidentes, 54 pessoas morreram e 685 ficaram feridas. A maioria das ocorrências aconteceu nas BR-116 e BR-277, as duas rodovias de maior fluxo no Estado.
De acordo com um levantamento da Polícia Rodoviária Federal (PRF), no Paraná, um terço dos acidentes com veículos de cargas nos seis primeiros meses deste ano envolveram também veículos de passeio. Segundo o coordenador de comunicação social da PRF, inspetor Fabiano Moreno, nesse caso a gravidade é grande. ''Dos 47 óbitos registrados neste período, 28 aconteceram em colisões com veículos de passeio''.
Na opinião do tenente Sheldon Vortolin, da comunicação da Polícia Rodoviária Estadual (PRE), na maioria das vezes o acidente é fatal para o ocupante do veículo menor. Para ele, a principal causa das colisões é o excesso de velocidade, seja pelo motorista do caminhão como do outro veículo envolvido. ''Um veículo pesando 50 toneladas a uma velocidade de 100 km/hora simplesmente não consegue frear em uma emergência. Outros incidentes são por conta da ultrapassagem forçada ou pela 'comida de faixa' (invasão da outra pista durante uma curva)'', explica.
As três maiores incidências, apuradas pela PRF, são colisões traseiras e laterais, saída de pista e tombamento. ''Em 89% dos casos houve falha humana, como imperícia, imprudência e falta de atenção. De janeiro a junho deste ano, registramos 38 casos de motoristas de caminhão que estavam acima do limite permitido de álcool e em 31 ocorrências eles haviam dormido ao volante'', conta Moreno.
Para o motorista de caminhão Ademir Azevedo, há 32 anos na profissão, as imprudências são comuns das duas partes. ''Enquanto o motorista de carro pequeno é imprudente nas ultrapassagens, o caminhoneiro dirige cansado e com sono por causa da carga horária excessiva que precisa cumprir''. O autônomo culpa também as estradas ruins e as falhas na educação de todos os motoristas para dirigir em rodovias.
Gilberto Muller, 12 anos de profissão, costuma dar expedientes de 18 horas, mas já chegou a ficar 24 horas dirigindo. Ele conta que nunca teve nenhum acidente grave, mas também pensa que o cansaço e as poucas horas de sono são os grandes responsáveis pelas imprudências dos colegas de profissão. Marcos Rodrigues, motorista de caminhão há 20 anos, já se envolveu em um acidente grave. ''Estava chovendo muito, levei uma fechada de um carro e saí da pista'', conta.
Um estudo realizado pelo Ministério Público do Trabalho e Policía Rodoviária Federal mostra que 82% dos motoristas empregados que têm pagamento por comissão trabalham mais de 16 horas diárias; entre os com pagamento formalizado, 64% fazem jornada de trabalho acima de 16 horas.
Para o presidente da Federação dos Trabalhadores do Transporte Rodoviário do Estado do Paraná (Fetropar) e do Instituto São Cristóvão (entidade de projetos educativos para a categoria), Epitácio Antonio dos Santos, até 70% dos trabalhadores do transporte de cargas fazem excesso de jornada e acabam usando substâncias químicas para se manterem acordados. ''Nosso trabalho é para aprovar a lei que regulamenta a profissão de caminhoneiro. A primeira exigência é o controle das jornadas de trabalho'', explica.
O vice-secretário da União Internacional de Transporte Rodoviário (IRU na sigla em inglês), Umberto de Pretto, acredita que as leis atuais são omissas e não existe fiscalização efetiva com relação à carga horária dos motoristas. ''Eu acho que, ao invés de ficar regulamentando o que é trabalho, é melhor estabelecer o quanto é preciso descansar. O motorista descansado significa menos risco para ele e para as outras pessoas com quem divide a estrada'', explica.
Em todo país, 91 mil acidentes por ano envolvem veículos de cargas. O resultado é a morte de 12 mil pessoas, sendo 4 mil motoristas de caminhão. O impacto na economia é grande, R$ 10 bilhões ao ano são perdidos no País em decorrência dos acidentes envolvendo transporte rodoviário. O número é dez vezes maior do que o prejuízo decorrente de roubos de cargas.


