Toneladas de comida podem apodrecer
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quarta-feira, 25 de março de 1998
Célia Baroni 
Milton DóriaDoação aceleradaAté ontem, 10 toneladas de alimentos foram levadas: pessoas pegam o que quiserem, sem orientação Cerca de 20 toneladas de brócolis, couve-flor, vagem, cenoura, batata e pimentão correm o risco de apodrecer na câmara fria da empresa Freezagro Produtos Agrícolas, de Cambé (13 quilômetros a oeste de Londrina). Na segunda-feira, o sócio-proprietário da empresa, Sidney Franchello, esteve na Prefeitura de Cambé, em reunião com o prefeito José do Carmo Garcia (PTB) anunciando que iria doar todo o estoque de produtos que ainda restava - cerca de 30 toneladas. Mas, até ontem, apenas 10 toneladas haviam sido distribuídas.
A Copel cortou o fornecimento de energia elétrica à empresa no início de março. Franchello disse ao prefeito que, com o corte de energia, os produtos iriam estragar e preferiu optar pela doação dos alimentos. O empresário não pediu nem demonstrou interesse que a Prefeitura ajudasse a divulgar ou distribuir os alimentos, disse o prefeito. A dívida da Freezagro com a Copel está em torno de R$ 500 mil.
Já na segunda-feira, funcionários e o gerente - que ainda permanecem na empresa - já se colocaram à disposição de quem quisesse levar os produtos, com prioridade para instituições beneficentes. Até ontem à tarde, porém, não mais que 10 toneladas foram distribuídas.
Com a câmara fria aberta e sem energia elétrica para manter a temperatura ideal de congelamento, os produtos já começaram a estragar. Sem ninguém para entregar os alimentos, as pessoas entram na câmara fria e pegam o que acharem melhor, sem orientação alguma.
As pessoas que foram buscar os alimentos ficaram sabendo da doação pelas rádios. Quem está vindo aqui é o pessoal de Londrina. De Cambé ainda não vi ninguém, comentou uma mulher, que preferiu não se identificar. Desde segunda-feira, ela e outras duas voluntárias já haviam ido três vezes à empresa, buscando alimentos para a instituição que representam. Tudo que levamos na segunda-feira estava ótimo. Mas tivemos de jogar fora os legumes sortidos que pegamos ontem (terça).
Eu não disse? O pessoal já levou todos os morangos. Não tem mais nada, dizia outra mulher, que também não quis se identificar. Ela estava empenhada em conseguir produtos para uma escola particular da Cidade. Edson Borges de Oliveira, de Londrina, ouviu pelo rádio que a Freezagro estava doando produtos. Vim ver o que posso pegar para o lar infantil Leo Pita. Dá pena ver tanta coisa estragando. A gente sabe que tem tanta gente precisando...
Ontem à tarde a empresa recebeu ofício da Justiça marcando para o dia 8 de abril o leilão de parte do seu maquinário. O leilão é em decorrência de ação trabalhista movida por ex-funcionários da empresa. A Freezagro está sendo acusada na Justiça de ter obtido empréstimos irregulares junto ao Banestado. A empresa paralisou os serviços várias vezes. A última retomada de atividades aconteceu em outubro do ano passado. Há um mês, a Freezagro demitiu 170 funcionários. Os trabalhadores da empresa fizeram várias manifestações denunciando atraso de salários e dívidas trabalhistas.
Em entrevista à Folha em abril de 97, o presidente do Banestado, Manoel Campinha Carcia Cid, o Neco Garcia, comentou o caso. Segundo ele, quando terminar o prazo da dívida, em 1999, a Freezagro terá a pagar R$ 21 milhões ao Banestado. A dívida teria começado em 94, quando a Freezagro tomou um empréstimo de R$ 7 milhões para investimento e capital de giro e deu como garantia um terreno onde seria construída a indústria. O Banestado questionou a garantia porque o imóvel está sub judice.
O empresário Sidney Franchello discorda dos valores divulgados pelo presidente do Banestado. O empresário diz que a soma das operações com as duplicatas descontadas no Banestado foi de R$ 1,3 milhão. Na dação em pagamento, este valor virou US$ 3,5 milhão. A dívida de R$ 12 milhões que o presidente do banco diz que eu teria de pagar em 1999 não existe, disse em entrevista à Folha em agosto de 97.


