Tomo cuidado para não encostar nos fios
PUBLICAÇÃO
sábado, 15 de fevereiro de 2014
Vítor Ogawa<br>Reportagem Local 
Londrina - Uma casa em que não se pode usar chuveiros elétricos, ferro de passar roupa, ar-condicionado ou mesmo uma máquina de lavar. Assim é o cotidiano de uma família que vive na periferia de Londrina e usa isso como justificativa para fazer uma ligação irregular de energia elétrica. A dona de casa Renata (nome fictício) relata que não tem direito a uma instalação legal porque vive em uma área irregular de assentamento, na zona leste. "Como eles não instalam a energia para a gente, o jeito é fazer essa ligação clandestina", afirmou. Ela conta que a instalação é precária e se algum outros morador usar um equipamento com uma potência mais alta, o cabo de energia acaba queimando.
"Para tomar banho quente a gente aquece a água no fogão. A roupa a gente usa meio amarrotada mesmo, já que não pode passar a roupa. Já para lavar a roupa, só no tanque mesmo, pois se colocar uma máquina para funcionar, queima tudo", relata. "A energia só serve para acender as luzes, carregar o telefone celular ou assistir TV. Se colocar alguma coisa além disso, complica", acrescentou.
O professor de instalações elétricas da Unopar, Leandro Guerra, destaca que pode haver risco de incêndio quando a instalação não for feita adequadamente. "Existem normas que devem ser seguidas. As tomadas devem ser adequadas para cada tipo de eletrodoméstico", orientou.
Para a ligação clandestina os moradores recorrem a um jovem de 19 anos. Ele conta que realiza o serviço somente para ajudar as famílias. "Eu aprendi a fazer essas ligações com o meu padrasto, que trabalhou na Copel", afirmou, acrescentando que eletricista não é a sua atividade profissional.
A reportagem encontrou o jovem fazendo um reparo, já que houve um curto-circuito que deixou várias casas sem luz. A cada tentativa de conserto ele pedia para que a dona de casa Renata verificasse se a luz havia retornado. Diante da negativa, ele voltava a manusear a fiação usando um alicate, sem qualquer equipamento de segurança, vestindo somente com a camiseta, bermuda e sandálias de borracha. Questionado se não sentia medo, ele afirmou que é preciso precaução para lidar com a energia elétrica. "Eu tomo cuidado para não encostar nos fios", garantiu.
O professor relata que o risco de se levar uma descarga elétrica manuseando diretamente o poste da Copel é muito grande. Segundo ele, os eletricistas residenciais só possuem autorização para instalar o padrão da Copel, mas para fazer essa ligação até o poste não é permitida, pois trata-se de uma atribuição dos funcionários da companhia.
Segundo Guerra, muitas pessoas adotam outro tipo de ligação clandestina, os chamados "by pass", que consistem em realizar o desvio de energia dentro da própria caixa padrão da Copel. "O risco de se levar um choque manuseando esses cabos é muito grande. São 30 mil volts, que se não fosse de corrente alternada poderia até matar, mas que funciona como se fosse um soco", alertou. Ele também destacou que o uso de equipamentos de segurança também é importante, já que se houver um curto-circuito, podem sair faíscas que podem atingir o olho. "Se uma pessoa está no alto de uma escada e levar um susto, pode cair e bater a cabeça", apontou.


