Mauricio Della Barba
De Londrina
Tókio, a capital do Japão, é famosa por ser uma das cidades mais agitadas e populosas do mundo. Bem diferente disso, no lado oposto do Planeta, um bairro com o mesmo nome está longe de se parecer com a megacidade oriental.
Trata-se do Jardim Tókio, um agradável bairro localizado na zona oeste de Londrina e conhecido pela paz e tranquilidade das ruas e de seus quase dois mil moradores. É bom salientar que, por mais incrível que pareça, são poucos e raros os descendentes de japoneses que habitam o local.
Estranha-se ao andar pelas ruas Achiro Kawazaki, Tamekishi Hara e Juhei Muramoto e não se deparar com nenhum japonês. Sashimi, sushi e sukiaki nem pensar. O bairro é mesmo de brasileiros, com muitos bares, gente nas ruas e bola na praça.
O Tókio foi criado em março de 1968, a partir da Gleba Patrimônio Londrina, de propriedade do japonês Massao Inoue. Bem arborizado e planejado, o bairro apresentava as ruas com nomes de letras, quadras grandes, sete vielas e três praças. O primeiro comprador das terras do bairro foi João Francisco do Santos, um ano depois, em fevereiro de 1969.
De herança japonesa, só mesmo os nomes foram deixados pelos antigos donos do loteamento. ‘‘Aqui tudo era dos japoneses. Depois que venderam os seus sítios e chácaras para serem loteados, sumiram daqui’’, conta Eva Alves da Silva, de 49 anos, uma das moradoras mais antigas do bairro.
Eva é a segunda esposa de Cacildo Salustiano da Silva, de 67 anos, que testemunhou a criação do Jardim Tókio. Salustiano vive até hoje na mesma casa que morava quando tudo ali ainda era um sítio de japoneses. ‘‘Os seus onze filhos foram criados neste lugar’’, conta a esposa. A casa onde moram, com 45 anos de idade, está construída torta em relação a rua. ‘‘Ela está assim porque foi construída antes das ruas’’, explica Eva.
A moradora diz que o bairro mudou mesmo de cara a partir de 1981. ‘‘Foi a partir daquele ano que aumentou bastante o número de casas’’, revela. Na hora de reclamar, Eva pede mais ônibus para atender a região. ‘‘Ficamos muito tempo à espera do ônibus. Tem muita gente e pouco ônibus aqui’’, diz.
Pomares, pastos e muitos pés de café. Assim era o Tókio antes de virar bairro. Com o loteamento, tudo acabou. Surgiram então as casas, em ritmo lento e bem timidamente espaçadas. Rodeavam a Igreja Nossa Senhora da Piedade, um dos marcos do bairro.
Oito mangueiras ainda resistem ao tempo e servem para provocar as lembranças dos mais antigos moradores. Localizadas na praça principal, também de nome japonês, a Tadao Kanayama, as mangueiras servem de sombra para os mais estressados e de diversão para as crianças. Na época certa, quando estão carregadas de manga, estilingues e varas de bambu são vistos por toda a parte em busca de um delicioso fruto. Suja, com bancos quebrados e pouca iluminação, a praça mereceria um pouco mais de atenção.
Outro ponto de referência no bairro é o Bar e Mercearia Santa Luzia, mais conhecido como o ‘‘Bar da Laura’’. É ali que se reúnem os principais saudosistas do Tókio. ‘‘As pessoas informam seus endereços dando como referência o bar: a casa do fulano fica na rua de cima do Bar da Laura, a do cicrano duas abaixo do Bar da Laura’’, diz Laura Dutra, a dona do bar, é claro. Ela mora no Tókio há 23 anos.
A dona do bar sabe um pouco da história do Tókio. Na memória guarda as dificuldades da época em que tudo era barro e mato. ‘‘Lembro quando chovia e tínhamos que pegar ônibus no outro bairro, o Industrial. Levávamos outro sapato limpo em uma sacola para trocar o que havia sujado durante a caminhada até o ponto’’, relembra.
Hoje, Laura é considerada a ‘‘mãe’’ de muitos jovens do bairro. ‘‘Esses jovens que vem no meu bar hoje, com 22, 23 anos, eu vi nascer. Agora eles vêm aqui pedir favor e até dinheiro. Pode ?’’. Bares e vendas é o que não falta no Tókio. ‘‘Virou praga por aqui’’ reclama, brincando. A facilidade do negócio, quase informal, e uma relativa distância de grandes supermercados são os motivos apontados pela proliferação dos estabelecimentos do tipo no Tókio.
Laura diz que muito foi mudado durante esse tempo. Apesar disso, salienta as qualidades do bairro. ‘‘Aqui é tranquilo, não tem muita agitação, temos igreja, posto de saúde, bombeiros e um povo amigo. Acho que essas são as principais qualidades do nosso bairro’’, afirma.
Projetado com quadras largas, o Tókio apresenta várias vielas. A solução, bastante utilizada em outros bairros da cidade, visa facilitar a travessia de pedestres entre duas ruas paralelas. Mas também serve de ponto de encontro de marginais e traz muita insegurança aos moradores.
Por isso, segurança é a principal queixa dos habitantes do Tókio. Apesar da pouca ocorrência de assaltos e arrombamentos em residências, a maioria dos moradores gostariam de uma presença mais constante da Polícia Militar. ‘‘Ajudaria a espantar muitas ‘tranqueiras’ suspeitas daqui’’, fala uma das moradoras que preferiu não se identificar.
Longe da violência e perto da paz, no Tókio é possível ver muita gente sentada em cadeiras e bancos colocados nas calçadas. Alguns bancos servem de ponto-de-encontro de moradores, que aproveitam para ‘‘bater papo-fiado e dar algumas risadas’’, como diz Neri José Tardin, de 61 anos de idade e 28 como morador do Tókio.
Tardin construiu seu próprio banco, que fica ‘‘chumbado’’ no muro da casa. Mesmo sem praça na frente, Tardin afirma haver uma semelhança com o famoso ‘‘banco’’ do programa de televisão ‘‘A Praça é Nossa’’. ‘‘Aqui só senta quem é convidado’’, brinca Tardin, rodeado pela esposa Euza Luciana e os amigos Firmino Francisco dos Santos, de 76 anos, Ilda Pereira da Silva, 60 anos, e José Antônio Silvério, de 51 anos. Todos já são moradores do Tókio há quase 30 anos. Mudar dali, nem pensar. ‘‘Aqui é o lugar da gente, temos nossa casinha e nossa vida é boa. Não dá para sair’’, diz Ilda.

JARDIM TÓKIO
Onde fica: zona oeste de Londrina
Data de criação: março de 1968
População: cerca de 2 mil moradores
Característica: ruas com nomes de japoneses, em homenagem aos antigos chacareiros e sitiantes da regiãoCriada por imigrantes e descendentes de japoneses que lotearam sítios e chácaras, bairro da zona oeste tem hoje, do passado, apenas o nome
Cesar AugustoCesar AugustoCesar AugustoCesar AugustoCENAS DO TÓKIOA igreja do bairro, de construção moderna (ao lado); abaixo, à esquerda, Eva Alves da Silva, uma moradora antiga do bairro; à direita, Laura Dutra, dona do ‘‘Bar da Laura’’; viela, uma das queixas dos moradores: vias insegurasCesar AugustoA praça, local de encontros e diversão das crianças

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