Todos à beira de um ataque de nervos
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sexta-feira, 13 de maio de 2005
Phoenix Finardi<br>Reportagem Local 
Na fila do banco, Francisco, 48 anos, vendedor, bate o pé, impaciente. Consulta o relógio de minuto em minuto e olha feio para a senhora de idade que se demora no caixa eletrônico. Tem dia que eu já acordo irritado, só de pensar no que vou ter que passar; aguentar conversa mole de cliente, fazer cobrança e ter que vender uma cota mínima prá não ficar no prejuízo no fim do mês, desabafa. Mas o que me faz perder mesmo a razão é chegar em casa e a janta não estar pronta, confessa. Tempos atrás, durante discussão com a mulher, ele quebrou a porta do quarto com um soco.
Pessoas como Francisco serviram de inspiração para um personagem de programa humorístico na TV que usava um bordão famoso: Tolerância zero. Nas telas do cinema, Michael Douglas também viveu um trabalhador comum, que explode depois de agüentar vários pequenos incidentes que deixariam qualquer um de nós irritados. Afinal, quem já não teve seu Dia de Fúria?
Na ficção, esse tipo de coisa pode até render cenas inusitadas, mas na vida real, situações em que as pessoas perdem o controle geralmente não têm nada de engraçado. Nessa semana, três histórias bem reais chocaram a todos. Na segunda-feira, um representante comercial ateou fogo no próprio veículo. O episódio aconteceu no meio da tarde, em frente ao Pronto Atendimento Infantil. Ele não conseguiu pagar o financiamento do carro e preferiu queimar o Celta 2003 a ter que devolvê-lo para o banco. Ele usou uma garrafa com gasolina e provocou uma explosão que o atingiu no rosto e nas pernas.
Um dia antes, um vendedor entrou com o carro, um Santana, no prédio da Justiça do Trabalho em Ivaiporã, no Norte do Estado. Ele perdeu a cabeça depois de ser condenado a pagar uma dívida trabalhista de R$ 23 mil. A história do aposentado Sebastião Casciano, 66, foi ainda mais trágica. Depois de quatro anos economizando para pagar uma dívida no Detran, ele recebeu a notícia que o carro que ele esperava recuperar, uma Brasília, havia sido leiloado. Casciano teve um ataque cardíaco e morreu em frente ao Detran.
O combustível que alimenta essas explosão é um composto muito variado. Tempo perdido em filas, telefonemas (geralmente na hora do almoço) de bancos que querem doar cartões de crédito, o toque insistente da campainha, o rush diário do trânsito, as cobranças (do patrão, do cônjuge, dos filhos, dos amigos), a insatisfação, a falta de perspectiva, a falta de prazer. Tudo isso pode vir em gotas, que vão enchendo pouco a pouco, até passar das medidas.
A mesma fúria repentina ataca homens, mulheres e até crianças. Na mesma agência bancária, logo atrás de Francisco, na fila, uma senhora discute com alguém no celular. Quando a repórter se aproxima e pede permissão para entrevistá-la, ela fica em silêncio. Ao ser questionada sobre que tipo de coisa a tira do sério, responde na hora: Tudo, minha filha. Tudo. Inclusive pergunta inconveniente em hora errada.


