'Todo mundo acaba se acostumando'
Imagine a rede de esgoto de toda a Zona Norte de Londrina e parte da Região entral desembocando em duas valas compostas por grade de ferro. Esse é o primeiro processo de limpeza de todo o tratamento de esgoto da Sanepar, que separa os resíduos sólidos do líquido.
''Limpo essas grades para não haver um entupimento e para eliminar esses resíduos'', conta João Roberto Borges, funcionário há 20 anos da empresa. Aos 55 anos, ele já se aposentou, mas não quer deixar o trabalho. ''Quero ficar aqui até quando eu puder trabalhar. É um emprego muito bom e gratificante, pois grande parte dos moradores de Londrina precisa do meu trabalho'', comenta.
Mas assim como os demais profissionais desta reportagem, Borges sente um certo ''preconceito'' ao falar sobre o trabalho. ''As pessoas têm nojo. Já teve situações em que as pessoas não quiseram tocar em mim depois que descobriram o que eu fazia'', comenta.
Na própria família, ele conta que a aceitação do trabalho também foi embaraçosa. ''Eu chegava cheirando ruim em casa e minha mulher pedia para eu tomar vários banhos por dia. Mas todo mundo acaba se acostumando'', diz o agente técnico de produção, pai de três filhos.
Mas nem para Borges o início foi fácil. Ele conta que teve muita ânsia de vômito, dificuldade para lidar com o mau cheiro e até para fazer as refeições após o trabalho. ''Demorei seis meses para me acostumar. Hoje, não quero fazer outra coisa'', revela.
Realmente, quem acompanha o dia a dia de Borges, sabe que a tarefa não é simples. Afinal de contas, ele é responsável por retirar da grade do esgoto, todo o tipo de resíduo. ''Rato e preservativo é o que mais vem. Todo dia e toda hora. Mas também já encontrei coisas que nunca iria imaginar. Já retirei fetos, cadáver e muitos animais mortos'', relata.
Para cada situação dessa, ele diz que não tem como não ficar pertubardo, mas reconhece que a recompensa está no objetivo final. ''A gente devolve a água limpa para os rios. Imagine se não houvesse esse trabalho? Seria tudo imundo, sem condições de sobrevivência'', afirma ele, que tem formação técnica em Contabilidade.
E mesmo tendo trabalhado na área, confessa gostar mesmo da função atual. ''No começo tive vergonha de falar do meu trabalho, mas hoje sei o quanto ele é importante e o quanto me orgulho disso'', ressalta. (M.O.)





