''Tô limpo, só por hoje''
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terça-feira, 12 de fevereiro de 2008
Mariana Guerin<br>Reportagem Local 
''Bom dia família.'' Como um pai para os filhos, Moacir acolhe os meninos para o café da manhã. De mãos dadas, em roda, eles dão graças por mais um dia, só mais um dia, longe da tentação. ''Concedei-nos, Senhor, a serenidade necessária para aceitar as coisas que não podemos modificar, coragem para modificar aquelas que podemos e sabedoria para distinguir umas das outras.'' É na oração que eles confiam para cumprir a rotina, nada fácil, da recuperação.
Moacir Mansur Marum é o coordenador geral da Comunidade Libertad, Centro de Recuperação de Toxicômanos e Alcoolistas, que funciona há cerca de um mês em Londrina. Com 22 residentes, três deles menores de idade, a família luta junta em nome de um objetivo único: libertar-se do vício. Conforme Moacir, a fazenda passa a ser o lar e os residentes, os familiares do adicto, ''pois a primeira coisa que o adicto perde é a referência familiar''.
Ao chegar na comunidade, o residente ganha três dias de bandeira branca. ''Como ainda traz os vícios da rua, deixamos a pessoa se preparar para o início da laborterapia.''
E o segredo para a recuperação, assegura Moacir, é o trabalho. Os residentes se mantêm ocupados na cozinha, cortando a grama, pintando o muro, cuidando dos animais, na marcenaria e até colhendo frutas. O cuidado com as roupas e a organização e limpeza dos quartos também é por conta deles. Quando chegam, são mesclados em grupos para que os mais calmos possam abrandar o comportamento dos mais revoltados. Nas atividades em comum, o grupo todo se une ao redor do recém chegado. ''Ele é a pessoa mais importante no momento'', diz Moacir.
O espírito de união permanece entre eles durante todo o internamento. Depois de descobrir-se ''um anjo de uma asa só'', o adicto entende que sozinho não consegue nada. ''Não há como refugiar-se de si mesmo, por isso o tratamento em comunidade é eficaz. As histórias são as mesmas, todo mundo já chegou ao fundo do poço'', justifica Moacir.
Só um dependente para entender a aflição do vício, por isso todos os coordenadores da comunidade são ex-adictos. Moacir mesmo passou por um tratamento semelhante em Florianópolis (SC) e resolveu trazer a idéia para Londrina que, na opinião dele, carece de comunidades terapêuticas.
''Mas a comunidade é apenas uma parte do tratamento e não o fim'', assegura o coordenador. A recuperação acontece em três fases, a de desintoxicação, a de interiorização e a fase da ressocialização e visa a eliminação de remédios, a internação voluntária e a liberdade com responsabilidade.
Nos primeiros meses, as visitas familiares são semanais. A partir do terceiro mês, o adicto começa a frequentar grupos de apoio externos, como o Alcoólicos e o Narcóticos Anônimos e o Amor Exigente, e no sexto mês, o dependente já pode passar uma semana inteira em casa.
Além do trabalho, os residentes participam de reuniões com a equipe de psicólogas. Apresentação de filmes ligados ao tema da reabilitação e atividades físicas complementam o tratamento. Seis vezes ao dia a família recorda a oração da serenidade. ''São as palavras com as quais eles se identificam mais rapidamente'', garante Moacir.
Conforme a psicóloga Juliana Oliveira Barbino, nos três primeiros meses de internamento, o residente tem que se recuperar não só da droga como também dos vícios de comportamento e defeitos de caráter trazidos da vida em sociedade. Na fase de interiorização, a espiritualidade é a chave para o indivíduo descobrir a si mesmo. ''Eles chegam tão derrotados que aderem à espiritualidade no primeiro dia. É uma forma de buscar força'', diz Juliana. Segundo ela, diariamente é feita a leitura e discussão de um trecho da Bíblia.
''Aqui o adicto aprende a cuidar de si próprio e a lidar com regras. Eles aprendem que toda ação negativa tem uma reação e o objetivo do coordenador é passar firmeza, disciplina, mas por meio do respeito e não do medo'', explica a psicóloga.
Ao desrespeitar uma regra, o residente sofre uma punição. Pode ser a perda de uma guloseima, ter o cigarro cortado ou fazer algum tipo de trabalho braçal sozinho. ''Comigo o trato é paternalista, eles identificam a figura do pai em mim e eu os vejo como filhos e mesmo nos momentos ruins tiramos uma lição'', confessa Moacir.


