José Ribeiro da Luz tem 47 anos e mora na zona rural de Mamborê (36 km a oeste de Campo Mourão). Ele não sabe dizer ao certo qual é a sua profissão. ‘‘Faço qualquer serviço braçal. Sou forte para trabalhar’’. Ele só reclama da falta de serviço e do pouco dinheiro que ganha. ‘‘Quando tem trabalho, dá para tirar R$ 8,00 por dia’’. Seo José, no entanto, legalmente não existe. Ele não tem certidão de nascimento, não tem carteira de identidade, não tem carteira de trabalho e não tem título de eleitor.
Seo José foi uma das cerca de duas mil pessoas de Mamborê e Boa Esperança (56 km a oeste de Campo Mourão) que, na semana passada, participaram da quinta etapa do Mutirão da Cidadania, um programa criado pelo Tribunal de Justiça do Estado para regularizar a situação de quem, às vésperas do ano 2000, ainda não tem alguns dos documentos básicos.
‘‘O objetivo do programa é tirar as pessoas da clandestinidade’’, ressalta o presidente do Tribunal de Justiça, desembargador Henrique Lenz César. Para isso, o Mutirão envolve, além do TJ, a Corregedoria-Geral da Justiça, Ministério Público, secretarias de Estado da Justiça e Cidadania e da Segurança Pública, Delegacia Regional do Trabalho, Federação da Agricultura, Senar, Caixa Econômica, prefeituras e sindicados rurais dos municípios. As fotos necessárias foram bancadas pela prefeitura que contratou um fotógrafo. Um estúdio foi improvisado e, no total, foram tiradas mais de mil fotografias.
Seo José chamou a atenção porque ele não tinha os três documentos que estavam sendo emitidos pelo programa - certidão de nascimento, identidade e carteira de trabalho.
‘‘Sempre trabalhei na roça e não precisei de documentos’’, conta seo José. Ele reclama que nunca teve condições de ir atrás da documentação e diz que só aproveitou a chance oferecida pelo Mutirão da Cidadania porque não precisou pagar nada. Mas, como viver 47 anos sem nunca ter tido um documento sequer? ‘‘Quando precisei, usei os documentos da mulher como quebra-galho’’, contou. Seo José nunca votou.
A busca pela primeira carteira de trabalho levou cerca de 800 pessoas ao ginásio de esportes de Mamborê nos dois dias de atendimento do programa. Ela só perdeu para a carteira de identidade, que teve mais de mil pessoas interessadas. O trabalhador rural Valdomiro Lopes, 66 anos, é um dos que teve que enfrentar a fila pela carteira de trabalho. Ele nunca teve o documento e só foi atrás da carteira porque quer se aposentar. ‘‘Me falaram que sem a carteira de trabalho ninguém se aposenta’’.
Lopes fica sem graça ao explicar por que nunca foi atrás do documento. ‘‘Acho que faltou cabeça’’, reconhece. Na mesma situação está Estanislau Janicki, 63. ‘‘Trabalhei a vida inteira no sítio e nunca precisei de carteira de trabalho’’. O documento agora serve apenas para alimentar o sonho de conseguir a aposentadoria. ‘‘Com a carteira deve ficar um pouco mais fácil’’, acredita. Janicki trabalha desde os 7 anos e já poderia estar aposentado há muito tempo se tivesse registro em carteira.
Na fila de espera pela carteira de trabalho ao lado de uma filha, dona Lair Lisboa de Oliveira, 66, não escondeu de ninguém que só estava fazendo o documento por pressão dos filhos. ‘‘Eu quero me aposentar, mas já tinha desistido porque eles enrolam muito a gente’’. Ela conta que já tentou a aposentadoria, mas não conseguiu. ‘‘Agora nem quero mais’’, diz, revoltada. ‘‘Meu marido ganha uma mixaria e a gente tem que sobreviver’’.
Doraldina dos Santos Messias, 54, é mais conformada. Ela foi levada pelo marido, Raimundo Manoel Messias, 59, para tirar a carteira de identidade. ‘‘Foi a médica que pediu para que eu arrumasse o documento’’, explica Doraldina. O marido conta que a falta de identidade da mulher já fez falta. ‘‘Ela precisou fazer um tratamento médico em Londrina e o documento fez falta’’. Messias diz com orgulho que esse é o único documento que falta para Doraldina. ‘‘Eu tenho todos aqui’’, diz ele, tirando a carteira do bolso.
O aposentado André Moreira, 54, já tinha todos os documentos, mas aproveitou para fazer uma nova identidade. ‘‘Extraviei a minha dentro de casa’’, diz, desconsolado. ‘‘Agora estou me batendo para fazer outra porque sou aposentado e dependo do documento para receber’’. A dona de casa Ana da Glória dos Santos, 39, fez a identidade pela primeira vez. ‘‘O documento já fez falta várias vezes’’, admite. Ela diz que entrega o CPF quando alguém lhe pede a identidade. ‘‘Isso é um pouco de descuido da gente’’.

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