Ele morava numa vila recém emancipada, de favela para bairro, com nome de rua, número nas mo destas casas e al gumas outras poucas melhorias. A vila, na zona oeste de Londrina, tem nome de uma santa, que evoca a paz. Mas ele, um morador do lugar, não tinha paz. Aliás, nunca teve. A rua onde morava também tem nome de santa: Nossa Senhora do Socorro. Pura ironia, mas ele nunca recebeu socorro.

Morava com a mãe, os irmãos e um sobrinho numa casa pequena. Não só o espaço era pouco para tantos, como também o alimento, sempre dividido. Mais quantidade do que dispunham para os menores e para os mais velhos. Ele, no meio, não tinha vez.

O pai já havia saído de casa depois de dezenas de brigas e surras em todos. Ele, então, virou o 'homem' da casa, o arrimo da família. Chegou a amar muito a liberdade quando era pequeno, quando podia correr na chuva descalço e se imaginar um gigante; quando podia subir nas árvores e fazer delas o seu castelo; quando podia empinar uma pipa ao vento e se imaginar voando; quando podia reclamar com a mãe sem sentir culpa que faltava comida na mesa. Isso durou pouco.

Pobre, negro, excluído, poderia estudar, ser um office-boy, seguir carreira, como meninos de tantos outros bairros da cidade. Ou se tornar um assaltante. Escolheu um pouco de cada alternativa: estudou até quando deu, assaltou para se sentir um pouco mais gente e comprar o tênis da moda, trabalhou para ganhar menos que um salário mínimo.

Não entendia porquê tanta injustiça, tanta diferença, e nem houve tempo para buscar explicações. Aos 15 anos, morreu baleado durante uma troca de tiros. Seis tiros numa madrugada qualquer. Dois deles no peito, fatais.

Ironicamente, um dos tiros atingiu a palma da mão. Será que tentou se 'defender'? Na história 'oficial' ele atirou primeiro com uma potente arma que usava para assaltar. O esquema de segurança teria precisado até chamar 'reforço' para liquidar com ele. Morreu porque estava em 'atitude suspeita'.

Alguns acharam injusto. A família chorou, fez o enterro. A mãe perdeu o filho mais velho e, quem sabe, o mais querido. Outros comemoraram: ''Um bandido a menos na cidade''.

Ficou na história como estatística. Está registrado como o 102º homicídio ocorrido no ano.

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