TIPOS HUMANOS - Calçadão: espaço da diversidade social
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terça-feira, 16 de agosto de 2005
Luciano Augusto<br> Reportagem Local 
O piso em petit-pavet desenhado como elos de uma grande corrente dá a dica: o Calçadão de Londrina é o espaço onde se relacionam os mais variados tipos humanos, onde as diferenças se enfrentam, onde os iguais se reconhecem, onde os excêntricos se mostram sem grandes preocupações. Ali, mais do que em qualquer outro espaço público da grande cidade, a vida em sociedade é pintada em todas as suas cores, das mais amenas às mais fortes.
Como não prestar atenção no artista de rua que faz do andar inseguro numa corda-bamba o seu ganha pão? Pois é assim que o cearense Sérgio Maciel, 60 anos, passa os dias levando um pouco de diversão aos que têm tempo de parar para prestigiar seus números circenses. A esposa, Francisca Aragão, também com 60 anos, conta que a técnica do marido vem sendo apurada desde quando ele tinha 10 anos de idade. Mas o público aumentou mesmo depois que ele virou celebridade ao ganhar um concurso em rede nacional de televisão.
Atenção também é que busca o pregador auto-proclamado ''Homem da Trombeta'' que praticamente todos os dias tenta arrebanhar fiéis para o ''Senhor Jesus'' e livrar o mundo dos pecados da carne. Alguns se assustam, outros acham graça, mas para o pregador o importante é levar os ensinamentos de Jesus a tantas pessoas quanto conseguir. ''Nosso interesse não é ofender ninguém mas fazer vir à luz a verdade que está na Bíblia, que não pode ser vendida''. Mas o Calçadão também é o espaço do sincretismo religioso. Até poucos dias atrás, um pai-de-santo passava os dias jogando búzios para quem se interessasse. Ele foi embora mas, volta e meia, retorna ao espaço democrático mais movimentado do centro da cidade com seu tabuleiro. Numa outra quadra, ciganas lêem a mão de quem se interessa. É um ritual centenário de preservação da cultura, pois os descendentes dessa etnia são proibidos de mendigar.
O fator cultural é um dos componentes que há 20 anos faz sobreviver uma casa de carteado que existe no Calçadão. ''É um negócio de família e é tudo legalizado'', garante o presidente da Associação Esportiva e Recreativa Lamar, Sérgio Elias de Oliveira. ''Já virou tradição, um ponto de referência e encontro de amigos'', completa Oliveira. As apostas variam entre R$ 5,00 e R$ 10,00, e a comissão para a casa é de 10%. Só não peça para fotografar quem frequenta o lugar. ''Se a minha mulher me ver no jornal amanhã ela me mata'', ironiza um dos jogadores.
A música também não falta no cartão-postal de Londrina. ''Adelina da Gaita'' já é personagem conhecida de todos os que frequentam o Calçadão. Sempre bem-humorada. O ouvido já não lhe permite ouvir com clareza as pessoas mas não chega a atrapalhar sua missão, na medida em que abafa a poluição sonora provocada pelos carros e os sons das inúmeras lojas. ''Comecei a tocar ainda era criança, era desse tamaninho assim'', mostra com as mãos. Aos 65 anos ainda precisa de disposição para se manter em pé o dia todo em pé e atenta aos ''meninos'' que tentam lhe roubar a gorjeta.
Na Praça Marechal Floriano Peixoto, o tom predominante é dos peruanos Milton Paul, 28 anos, e John Arias Arias, 32 anos. Integrantes do grupo ''De las alturas de los Andes'', eles divulgam a música tradicional andina, produzida com instrumentos de sopro típicos e sustentam esposa e filhos brasileiros. Só reclamam que deveria haver um ''coreto'' no centro do Calçadão para abrigar gente como eles. ''Em todo lugar do mundo existe lugares assim'', argumenta. Também é alí que os hippies expõem seu artesanato. Isso quando a fiscalização não ''inventa'' de querer tirá-los do lugar.
Quando começa a anoitecer, as praças e bancos do Calçadão são ocupados por casais apaixonados. Também é nesse horário que moradores dos muitos prédios residenciais alí fincados saem para passeios com seus animais de estimação. Crianças com bicicletas, patins e outros brinquedos dão um tom mais familiar ao lugar. É bom lembrar que essa tranquilidade foi abalada há pouco menos de um mês quando um jovem de 20 anos foi executado a tiros diante de várias testemunhas.
As horas avançam, as famílias voltam para suas casas e o Calçadão virá vitrine para os que estão em busca do prazer sexual que o dinheiro pode comprar. Se durante o dia, as cabines eróticas é que chamam a atenção exibindo filmes pornográficos, na madrugada, protegidos pela penumbra e pelo pouco movimento, são os garotos e garotas de programa que se exibem à espera de clientes. Os ponteiros do grande relógio da Papelaria Central continuam a girar e os perigos vão aumentando para quem circula pela região. O tráfico de drogas, tanto no Calçadão quanto em suas imediações, e a presença de ''trombadinhas'' são fatores de risco para quem passa. Um sinal dos tempos violentos que vivemos.


