Mauro FrassonO tio Kuein quer arranjar mais um casamento para o sobrinho Tucanambá; desta vez com uma caingangueA impressão mais forte que Kuein Manhaai Nhaguakã Xetá, 66 anos, tem dos brancos é o gosto estranho do sal. Habituado apenas a sapecar as carnes de veado, cateto e macaco antes de comer, ele evitava colocar na boca qualquer comida salgada. ‘‘Quando fui pego por homens brancos, toda a comida que eles davam jogava no rio’’, conta o índio, que muitos anos depois se rendeu ao tempero.
Kuein (que tem nome de mato Manhai Nhanguakã - jaguatirica pequena) foi retirado de sua família quando era um adolescente, na véspera de seu casamento. De lá foi levado para São Paulo, onde virou atração de circo. Como não se adaptasse a esta vida e acabasse se tornando um incômodo para os brancos, foi deixado de volta no local onde foi capturado. ‘‘Procurei meus pais e não encontrei’’, diz. E passou a ser transferido de aldeia em aldeia. ‘‘De casamento em casamento’’, acrescenta Tucanambá José Paraná (Tuca).
Hoje os dois vivem juntos na reserva de Rio das Cobras. Tuca promete a Kuein preparar mais um casamento com uma caingangue, para o próximo sábado. ‘‘Kuein é meu tio, porque é irmão de meu pai’’, conta.
Durante anos, os dois viveram separados. Tuca foi retirado da família aos 7 anos. Foi educado por brancos, que lhe ensinaram o português e os costumes locais. ‘‘Sofri bastante no começo’’, conta. Mais tarde, ele ajudaria como mateiro nas expedições que procuraram os xetás expulsos das terras, que perambulavam escondidos nas poucas áreas verdes da década de 50. ‘‘Nessas viagens encontrei o meu pai e mãe, que não quiseram se juntar a nós, fugindo sem deixar pista’’, lembra.
Tuca conta que lembra bem os costumes repassados pelos pais. Falando em xetá e depois traduzindo para o português, ele recorda com Kuein as bebidas feitas de jabuticaba. ‘‘Depois de uma grande caçada de veados, catetos, macacos, a gente bebia bastante, até cair’’, lembra.

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