Érika Pelegrino
O diretor-clínico do Hospital da Zona Sul, Sidney Girotto, mostrava, na semana passada, ao promotor de Defesa dos Direitos e Garantias Constitucionais, Paulo Tavares, as instalações do hospital, revelando a precariedade com que os profissionais trabalham. A auxiliar de enfermagem não pensou duas vezes, interrompeu a visita, chamou o promotor e desabafou: ‘‘Eu gostaria de saber do senhor como é possível melhorar a situação aqui. Fico angustiada com o sofrimento destas pessoas e não posso fazer nada’’.
O desabafo emocionado de Tilza de Lourdes Martins, 45 anos, não foi surpresa para aqueles que testemunham sua dedicação ao trabalho. Ela é conhecida entre os colegas pelo seu companheirismo e devoção à profissão. O diretor-clínico do hospital comentou com o promotor: ‘‘Ela é uma grande companheira’’.
Os pacientes que moram na região a conhecem pelo nome e não é raro Tilza ser cumprimentada nas ruas por pessoas que não reconhece de imediato. ‘‘Muitos me chamam pelo nome, mas são tantas pessoas que passam por mim que às vezes eu não me lembro quem é, mas sei que é alguém que passou por mim no hospital’’, afirma.
Humanista por natureza, Tilza não tem limites muito definidos para a dedicação e entrega aos pacientes. Para ela, não basta fazer o atendimento no local de trabalho. Quando considera necessário, chega até mesmo a dar o telefone de sua casa para o paciente.
‘‘As pessoas atendidas aqui são muito carentes. E não é uma carência só de saúde, mas também financeira e, principalmente, afetiva’’, conta. Quando está escalada para fazer a triagem de pacientes que serão atendidos, Tilza não se limita a pegar dados vitais e informações gerais sobre a pessoa. ‘‘Eu converso com o paciente e peço para ele dizer tudo o que está acontecendo’’, afirma. Muitas vezes, segundo ela, depois que o paciente desabafa e fala de suas angústias, nem precisa passar pelo médico. Depois da conversa ela sempre dá um recado: ‘‘Quando você estiver angustiado bata aqui na porta e pergunte se dá para conversar comigo’’.
O tratamento que Tilza dispensa aos pacientes mostra a sua postura diante do trabalho: ‘‘A enfermagem não é uma profissão, mas um dom de Deus’’. Vinda de uma família onde primos, uma irmã e uma tia são auxiliares de enfermagem - hoje uma de suas filhas segue o mesmo caminho -, Tilza descobriu a vocação para a área de saúde na adolescência.
Ela tinha 13 anos quando uma amiga, que era secretária num consultório de pediatria, a convidou para cobrir as férias dela. A amiga não voltou mais e Tilza ocupou o seu lugar. ‘‘Neste consultório comecei a achar bonito o trabalho na área de saúde e a ver a sua importância’’, conta. Tilza não parou mais. Foi secretária de outras clínicas e consultórios, casou-se, teve quatro filhos.
Durante anos acalentou o desejo de trabalhar diretamente com os doentes. Para isto sonhava em fazer o curso de auxiliar de enfermagem da Santa Casa. ‘‘Mas naquela época tinha algumas dificuldades: mulher casada, por exemplo, não podia fazer o curso’’, lembra. ‘‘Um pouco mais tarde tentei de novo, mas minha vida pessoal estava um tanto atribulada, meus filhos eram pequenos e a Irmã responsável pelo curso achou melhor eu esperar mais um pouco’’.
Em 1989 finalmente ela conseguiu fazer o curso de auxiliar de enfermagem. ‘‘Minha filha caçula já tinha oito anos e os outros filhos já eram mocinhos’’, conta. Durante o curso, ela já trabalhava. ‘‘Foi na UTI 2 da Santa Casa que aprendi a gostar muito do paciente. Lá descobri como a vida humana é frágil’’, conta. ‘‘Aprendi a me colocar no lugar do doente como se fosse eu mesma, um filho ou minha mãe, enfim alguém que eu gostasse muito’’.
Em maio de 1990 ela terminou o curso de auxiliar de enfermagem. Em abril já estava trabalhando no Hospital da Zona Sul, que acabava de ser inaugurado. ‘‘Eu e as pessoas que vieram para cá naquela época ajudamos a montar o hospital. Aqui não tinha nenhum móvel’’, conta.
Ver este mesmo hospital passando por uma situação crítica de superlotação deixa a auxiliar de enfermagem inconformada. ‘‘A falta de espaço para atender todos é o que mais me desespera. Tem dia que o movimento é tanto que colocamos dois pacientes na mesma maca’’, conta. Em dias em que o plantão é calmo, Tilza diz que passam por ela de 60 a 70 pessoas. ‘‘Quando a situação está crítica chega a 150’’.
Com tanta devoção pelo trabalho, Tilza afirma que a vida pessoal é um tanto sacrificada. ‘‘O marido reclama um pouco, mas esta profissão exige bastante mesmo’’, admite. Hoje, as horas de folga são dedicadas aos quatro netos. Mas raramente se desliga dos pacientes que estão internados. ‘‘A noite, quando estou em casa, costumo ligar para saber como estão os doentes mais graves’’.

PERFIL

Nome: Tilza de Lourdes Martins
Idade: 45 anos
Estado Civil: casada
Profissão: auxiliar de enfermagem
Sonho: o fim da violência

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