No portão, o cadeado não existe há muito. O mato tomou conta dos jardins e o lixo se espalha pelo quintal. As portas estão arrombadas, as janelas abertas e no canto do muro há restos de comida e excremento. Do lado de dentro, no que era um quarto, mais lixo, roupas abandonadas, uma marmita azeda e resquícios do que um dia foi uma fogueira. A situação da casa abandonada visitada e descrita acima pela reportagem da FOLHA não é incomum.
Como muitas, tornou-se um lar para moradores de rua, sem-tetos que precisam de abrigo, usuários de drogas, pequenos bandidos; difícil definir o perfil dos moradores sem rosto. O problema dos chamados mocós é um drama com o qual muitos vizinhos têm de conviver.
Na Prefeitura Municipal de Curitiba não há registros de quantos imóveis abandonados existem na cidade. Ao menos não um número que corresponda à realidade. De acordo com Jussara Policeno de Oliveira, gerente de fiscalização da Secretaria Municipal de Urbanismo, a Prefeitura atua em cima das denúncias da população. Partindo das denúncias, um fiscal do município diagnostica o problema para notificar o proprietário. Em cima desse trabalho, ela estima que existam cerca de 300 imóveis nessa situação em Curitiba.
Ainda assim, as denúncias não mostram a realidade dos fatos, ou seja, quantos imóveis atualmente são habitados por moradores de rua. "Em 90% dos imóveis assim ficamos sem informação do proprietário. É um problema grave na cidade", reconhece Jussara. E afirma: todos os dias surgem novos focos.
Ela lembra que, mesmo com a prefeitura recebendo denúncias e atuando para conter as invasões, há uma lei municipal de 2004 que responsabiliza o proprietário pela construção. "Esta lei estabelece ao dono a manutenção do local, como a limpeza e o fechamento de vãos de acesso ao imóvel", explica Jussara.
Segundo a gerente, há duas principais causas para o abandono total de imóveis: o primeiro é o espólio, quando vários herdeiros brigam judicialmente pela lugar. Enquanto a batalha se dá, a construção é invadida por mendigos e moradores de rua. O segundo motivo são empresas que acabam falindo e abandonando o imóvel. "Nosso grande impasse para tentar resolver o problema é não localizar os proprietários", justifica. Quando o dono da casa não é encontrado, a insegurança se estabelece.

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