A situação dos quatro policiais militares acusados de serem os autores dos disparos que provocaram a morte do jogador de futebol Raphael Bezerra da Silva, 20 anos, se complicou no início de julho após três testemunhas terem retificado declarações prestadas inicialmente. A promotora da 1 Vara Criminal do Fórum de Londrina, Susana Feitosa de Lacerda, deve encaminhar nos próximos dias à Promotoria de Investigações Criminais (PIC) pedido de abertura de inquérito para investigar se as testemunhas cometeram o crime de falsidade ideológica e se agiram de forma orientada para reforçar a versão dos policiais envolvidos. A promotora, que ingressou com recurso para que os PMs sejam julgados pela Justiça Comum e não pela Militar, acredita que as novas versões das testemunhas podem influenciar a decisão do Tribunal de Justiça.
Inicialmente, as testemunhas declararam através de escritura pública que viram Raphael dentro do veículo Celta que foi roubado na noite do dia 15, na Área Central de Londrina, e que o rapaz estaria armado. Já no depoimento à promotora em 8 de julho, afirmaram que não viram a vítima no local do roubo e, portanto, não poderiam dizer se portava arma ou não. Elas apontaram um rapaz conhecido por ''Tiquinho'' como um dos co-autores do roubo juntamente com Thiarles Fernando de Lima, que já foi condenado pelo crime. ''Tiquinho'' teve a prisão preventiva decretada e está foragido.
Raphael foi atingido por 13 tiros disparados por policiais da Rone em 15 de novembro do ano passado. Ele estava em uma casa no Conjunto Ernani Moura Lima (Zona Leste) onde a PM suspeitava que estivessem escondidos os autores do roubo do Celta. O jogador permaneceu internado durante 40 dias mas não resistiu aos ferimentos. Os PMs envolvidos são André Luiz de Almeida Figueiredo, Rangel Barbosa da Cunha, Edney Ronaldo Gomes e Sérgio Fontanette.
A promotora enviou cópia ao desembargador-relator do 1º Grupo de Câmaras Criminais do Tribunal de Justiça, Telmo Cherem, com as ''retificações'' feitas pelas três testemunhas. Ela acredita que as novas declarações podem ajudar no julgamento do recurso de conflito de competência que está sendo apreciado no Tribunal de Justiça pedindo que o crime seja julgado pela Justiça Comum. Nos próximos dias ela deve requerer abertura de inquérito para apurar se as testemunhas cometeram o crime de falsidade ideológica e se agiram de forma instruída. ''Elas disseram que foram orientadas embora afirmem que tenham feito (a escritura pública) por livre e espontânea vontade'', comentou Susana.
''Toda essa armação prova o desespero dos policiais e indica que realmente mataram meu filho'', comentou o pai da vítima, José Carlos da Silva, o ''Zéquinha''. Ele criticou ainda o fato de os quatro PMs envolvidos no crime terem sido transferidos para Foz do Iguaçu, onde voltaram a trabalhar.
A mãe de um dos PMs envolvidos e defensora dos policiais, Maria Lúcia Ferreira Barbosa, disse que não sabia se apenas uma ou todas as testemunhas haviam retificado seus depoimentos. ''Assisti parte do interrogatório de apenas uma testemunha, saí (da sala) e não quis assinar porque não concordei com a forma truculenta e massacrante que essa pessoa foi inquirida'', observou ela, que alegou não reconhecer valor jurídico nas novas declarações.
A advogada também rebateu a suspeita de que as testemunhas teriam agido sob instrução: ''se foi dito isso vou promover as devidas responsabilidades''. O advogado da família da vítima, Aldo Makiolke, acompanhou os depoimentos e assegurou que em nenhum momento houve coação ou truculência contra as testemunhas.

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