Testemunhas de uma época de horrores
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segunda-feira, 25 de maio de 2009
Edinelson Alves<br> Especial para a FOLHA 
Rolândia - Dois novos filmes, entre tantos já produzidos, voltam a explorar o nazismo e o extermínio dos judeus durante a Segunda Guerra: ''Ato de Liberdade'', dirigido por Edward Zwick, e ''Bastardos Inglórios'', de Quentin Tarantino. Não é por acaso que essa temática volta a ganhar espaço este ano no cinema. No dia 9 de novembro serão comemorados os 20 anos da queda do Muro de Berlim, o qual durante 28 anos dividiu a cidade em setor Oriental (dominado pelo regime soviético) e Ocidental (vinculado ao capitalismo). A Alemanha prepara uma celebração gigantesca com inúmeras atividades.
Para o casal Johannes e Barbel Hartmann, ambos próximos de completar 75 anos, as perseguições, separações de familiares e tantos outros sofrimentos são cenas vivas em suas memórias. Numa espécie de tributo a esse passado, os Hartmann vieram conhecer Rolândia, cidade do Norte do Paraná que recebeu uma grande quantidade de famílias germânicas, num tempo em que ainda era possível fugir das garras de Hitler. Recebidos pela família Steidle, com a qual mantêm antigo relacionamento, eles se emocionaram ao falar dos horrores da Segunda Guerra na Alemanha dominada pelo nazismo.
Johannes era criança quando viu os ciganos sendo expulsos do acampamento próximo de sua casa, em Eisleben (terra de Martin Lutero). ''Apesar dos gritos dos adultos e do choro das crianças, os soldados do Exército agiram com rigor. Não entendi o que estava acontecendo, mas percebi que as coisas não estavam bem na Alemanha.''
Filha de um pastor, Barbel também sentiu muito cedo o braço forte do nazismo. ''Só poderia prevalecer uma opinião única. Quem não concordasse com essa posição oficial não era bem visto pelos controladores do poder. Como meu pai era um líder religioso na cidade de Stettin, automaticamente passamos a fazer parte do grupo dos excluídos.''
Johannes explicou que os alemães que não se engajaram na loucura armamentista de Hitler sofreram duplamente: ''Com a perseguição interna e também com os ataques das tropas adversárias que despejavam bombas sobre todos, indistintamente''. Barbel conta que sua infância foi marcada pelo barulho das sirenes. ''Quando ouvíamos o som do perigo, nosso único instinto era fugir. A sirene regulava o nosso ritmo de vida''.
Terra da desolação
O relato do casal sobre o pós-guerra é comovente: ''Não restou praticamente nada da nossa Alemanha. O verde, os animais, tudo pereceu ou foi confiscado pelos russos. Era a terra da desolação, onde não havia nenhuma esperança. Pessoas sem casas, chorando pelos mortos ou desaparecidos, vagavam sem direção''. Para piorar, a Alemanha foi dividida em República Democrática Alemã (dominada pelos soviéticos) e a República Federal da Alemanha - que, tutelada pelos Estados Unidos, França e Inglaterra, recebeu incentivos para sua recuperação. Essa divisão marcou o início da ''Guerra Fria'' entre EUA e a então União Soviética.
Anos mais tarde, já morando em Berlim, no setor dominado pelos russos, os dois foram expulsos e não puderam concluir seus estudos. Tudo porque não quiseram fazer parte da Juventude Livre Alemã. ''Então, vão morar com os capitalistas americanos.'' Essa era a sentença para quem ousasse dizer não ao poder dominante. Em Berlim Ocidental, ele se formou em Administração/Economia e ela em Direito.
Mantendo relacionamento com familiares e amigos que continuaram morando do lado Oriental, os Hartmann percebiam que a divisão da cidade não era apenas geográfica. ''No setor Ocidental, as pessoas sabiam que precisavam estudar e trabalhar para melhorar a sua condição de vida. No setor Oriental, cada vez mais as pessoas dependiam do Estado, como se ele fosse uma mãe. Esse domínio centralizador do governo deixou as pessoas sem iniciativas e sempre dependentes'', comparam.


