Testemunha diz sofrer ameaça
Há dois anos, o carpinteiro Durval Messias, 51 anos vive amedrontado e doente. Sua casa, uma construção improvisada à margem de um córrego poluido e próximo a hoje quase extinta Favela Monsenhor Guilherme, está cercado com arame farpado e guardado por um cão feroz. Ele diz continuar recebendo ameaças, a maioria indireta, quando policiais civis transitam na região.
Messias sofre com tuberculose, não pode mais trabalhar. ‘‘Depois da chacina, passei 15 dias no mato tomando chuva e quase morrendo de frio. Comia mandioca crua e mamão cozidos pelo calor do sol. Depois disso, nunca mais tive saúde’’, diz pausadamente o carpinteiro, que luta o tempo todo contra uma insistente falta de ar.
O relato acima é sobre as duas semanas que o carpinteiro – testemunha ocular da operação policial que há dois anos matou quatro rapazes que estavam ocupando um cômodo de sua casa – passou em uma mata no interior do Paraguai, escondido de policiais que o ameaçavam ostensivamente nos dias posteriores ao que ele chama de ‘‘chacina’’.
‘‘Eles (as quatro vítimas) tinham assistido a um jogo da Seleção Brasileira e estavam dormindo. Caía um dilúvio. Os policiais chegaram, praticamente arrombaram a porta e algemaram os garotos. Depois levaram eles até o muro. Quando começaram os tiros achei que não ia acabar mais’’, conta Messias, que hoje sobrevive com doações de vizinhos e instituições de caridade.
O carpinteiro lembra que achou que poderia morrer caso se manifestasse, por isso se escondeu para observar a ação dos policiais. ‘‘Dei um tempo e saí de casa. Os corpos já não estavam lá. A água da chuva tinha esparramado o sangue por todo o lado. Vi o muro cravejado de balas e percebi o que tinha acontecido. Foi terrível’’, recorda. ‘‘Eles não eram bandidos. Foram mortos porque conviviam com gente da favela’’, arrisca uma explicação.
Messias alugava o quarto para os três menores – Eli, o mais velho, de 19 anos, era casado e tinha dois filhos mas também estava visitando o barraco. Segundo as mães, eles estudavam à noite e tinham medo de entrar na favela tarde da noite. (L.F.M.)

mockup