Fotos Albari Rosa(In) ComunicávelDepois de passar a noite em hotel, o delegado João Ricardo Noronha conversa com vendedores da Boca MalditaA incomunicabilidade das testemunhas do julgamento de Celina e Beatriz Abagge foi colocada em xeque depois da sessão de anteontem à noite, quando seis delas decidiram passar a noite no Hotel Del Rey, em plena Boca Maldita, em Curitiba. O grupo se recusou a embarcar no ônibus que levaria, de São José dos Pinhais, todas as 27 testemunhas para a Escola da Polícia Civil, na Vila Isabel, preferindo ir para o hotel.
As testemunhas, todas da acusação, ficaram no Del Rey até a manhã de ontem, quando tomaram café e, por volta de 11h40, começaram a chegar ao Fórum. As despesas de hospedagem, de aproximadamente R$ 270,00, correram por conta do Poder Judiciário. Uma das testemunhas, o delegado João Ricardo Noronha, podia ser visto por volta de 10 horas, passeando na Boca Maldita, onde comprou jornal, tomou um cafezinho e conversou com os vendedores ambulantes. Ao perceber que estava sendo fotografado, deixou o local rapidamente e desapareceu na multidão. Além de Noronha, hospedaram-se no hotel as testemunhas Francisco Moraes da Silva (diretor do Instituto Médico Legal), Carlos Roberto Dal’Coll, Dalvina Ramos, Manabu Jojima e uma mulher que se registrou apenas como Beatriz.
A juíza Marcelise Weber Lorite conversaria ontem à tarde com as partes para decidir sobre o assunto. O promotor Celso Ribas justificou a ida do grupo para o hotel, ao argumentar que todos ficaram incomunicáveis - talvez por não saber que as testemunhas ocuparam apartamentos duplos e sem a presença de um oficial de justiça que garantisse não haver nenhuma conversa entre eles. Ontem à tarde, Ribas apresentaria jurisprudência que garante que testemunhas não precisam ficar isoladas, desde que incomunicáveis.
Para o advogado João Gomes Filho, um dos defensores de Celina e Beatriz Abagge, as testemunhas, da defesa ou da acusação, devem ter o direito de cuidar de seus afazeres, desde que mantenham silêncio sobre o julgamento. Já Omar Elias Geha, também da defesa, disse ser difícil manter incomunicável uma testemunha fora do isolamento, ‘‘pois cedo ou tarde ela acabará falando sobre o julgamento e dando sua opinião’’.
Um advogado e um promotor, ambos com larga experiência em júris, ouvidos ontem pela Folha, têm opiniões divergentes sobre a indisciplina das testemunhas. Ao citar o Código de Processo Penal, o advogado disse que o caso é para dissolução do júri. O promotor disse que se a lei for cumprida ‘‘a ferro e fogo, as testemunhas teriam de ficar mesmo isoladas, mas elas têm suas vidas fora do tribunal e o bom senso deve prevalecer’’. Ambos pediram para não ser identificados.
A primeira testemunha do caso Evandro, o perito aposentado Arthur Conrado Drischel, de 58 anos, continuou a depor ontem. Depois de Drischel, seria interrogado o médico Manabu Jojima, que assinou o laudo dizendo que Osvaldo Macineiro, Vicente de Paula e David dos Santos Soares não apresentavam lesões. As rés são acusadas do assassinato de Evandro Ramos Caetano, cujo cadáver foi encontrado mutilado no dia 11 de abril de 1992.

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