Testemunha de crime reaparece em Foz
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terça-feira, 09 de dezembro de 1997
Antônio França Foz do Iguaçu 
Ney de SouzaLei do medoDurval Messias, a filha e a mulher Maria de Lurdes: pressão dos policiais amedronta testemunhasO carpinteiro Durval Messias, 49 anos, considerado uma das principais testemunhas de acusação contra oito policiais envolvidos na morte de quatro rapazes na madrugada de 11 de outubro, na Favela Monsenhor Guilherme, em Foz do Iguaçu, reapareceu. Ele esteve sumido por três dias, depois de prestar depoimento na presença de pelo menos três policiais acusados, ao delegado corregedor da Polícia Civil Carlos Roberto Moreno, que preside uma sindicância interna.
Messias confirmou ontem que estava sendo ameaçado por policiais envolvidos no caso e decidiu desaparecer. Ele testemunhou a operação policial que resultou na morte de Eli de Oliveira, 19 anos; Ademilson Dias de Mattos, 17; Arnaldo Oziel Mongelos, 16; e Giovane Medina, 15.
Messias passou quase uma semana escondido num matagal em Hernandárias, Paraguai (a 30 quilômetros da Ponte da Amizade). Ele comeu mandioca crua e mamão e dormiu no mato durante seis dias. Sábado, quando chegou em casa, comeu um pedaço de pão com margarina e um copo de café com leite e desmaiou.
Ele afirma que os rapazes foram executados pelos policiais Hugo Vidal Ferreira Junior, Luis Carlos dos Santos, Celso Geraldo Bueno de Carneiro, Luis Carlos Dorial, Paulo Roberto Saucedo, Francisco Carlos Cogrossi, Pedro Isac Nemecek e Fioravante Beruchon dos Santos. A versão dos policiais é que eles foram recebidos a tiros. Eu não vi tiroteio. Vi quando os rapazes saíram enfileirados e algemados para o terreno baldio. Depois, ouvimos vários tiros. Não sei como uma pessoa algemada pode atirar, afirma Messias.
Ontem, o carpinteiro foi atendido numa clínica médica a pedido do Centro de Direitos Humanos. Ele foi consultado pelo clínico e dermatologista Ney Chassot e pelo psiquiatra José Elias Aiex Neto. Os primeiros sinais apresentados são de desnutrição, desidratação e queimaduras de sol graves por quase todo o corpo. Ele está transtornado e as ameaças que recebeu deixaram sequelas, adiantou Aiex.
Messias diz que ainda tem muito medo. Ele lembra que, quando estava depondo, os policiais que participaram da operação ficaram ao seu lado. Um deles, ciscava com o pé e o outro torcia o queixo e mostrava raiva, disse. Mas a principal ameaça, segundo Messias, teria sido um recado através de morador da Favela do Bambu (ao lado da Favela Monsenhor Guilherme). Os policiais estariam dizendo que mais quatro pessoas morreriam caso as testemunhas insistam na versão de que houve execução.
A lei do silêncio está imperando na favela. As testemunhas estão com medo. Os parentes dos rapazes mortos evitam falar com a imprensa. Cada testemunha tem uma reação. Durval ficou com medo e preferiu desaparecer. Outros estão enfrentando as ameças em casa, afirma o presidente do Centro de Direitos Humanos de Foz do Iguaçu, Romeu Olmar Klich. Se contasse para minha mulher, eu sabia que ela seria torturada e ia acabar dizendo onde eu estava, disse Messias.
O parente de um dos rapazes mortos, que teme ser identificado, disse à Folha que homens encapuzados e com metralhadoras voltaram a rondar a favela. O delegado que presidente o inquérito policial Altino Remi Gubert disse que a conclusão das investigação depende de depoimentos feitos por precatória em Curitiba e do laudo de exumação dos quatro cadáveres.


