Testemunha de ação policial desaparece
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quinta-feira, 04 de dezembro de 1997
Antônio França Foz do Iguaçu 
Ney de SouzaMedoMaria de Lourdes, a filha e a foto do casamento com Durval: carro de farol apagado circulou perto da casaO carpinteiro Durval Messias, 46 anos, uma das quatro principais testemunhas da operação policial que resultou na morte de quatro rapazes na Favela Monsenhor Guilherme, em Foz do Iguaçu, está desaparecido desde domingo. Familiares e testemunhas afirmam que quatro rapazes foram executados por oito policiais e pelo delegado Antônio Donizete Botelho, que comandou a operação.
A família de Messias mora em frente ao campo de futebol da favela, onde Eli de Oliveira, 19 anos; Ademilson Dias de Mattos, 17; Arnaldo Oziel Mongelos, 16; e Giovane Medina, 15, foram mortos a tiros. A mulher do carpinteiro Maria de Lourdes Messias, 41 anos, denunciou o desaparecimento do marido ontem ao Centro de Direitos Humanos (CDH) e ao Ministério Público, que está fazendo a investigação paralela à da Polícia Civil.
Segundo o presidente do CDH Romeu Olmar Klich, o Ministério Público e os membros do Centro de Direitos Humanos sabiam das ameaças que Messias vinha sofrendo. Infelizmente, não temos um programa de apoio de proteção a testemunhas, lamentou Klich.
Domingo à tarde, Messias telefonou ao CDH e foi atendido pela irmã Zenaide Guarnieri, que fazia plantão. A freira disse que ele estava apavorado dizendo que viaturas policiais estariam lhe seguindo.
Irmã Zenaide - que acredita ter sido a última pessoa que falou com ele - orientou para que ele procurasse o CDH segunda-feira, quando sua denúncia seria encaminhada ao Ministério Público. Porém, no domingo ele saiu de casa e não retornou.
Ele disse que ia dar uma volta e não voltou, afirma a mulher de Messias. Segundo ela, na madrugada de sexta-feira, um carro circulou com luzes apagadas em frente a sua casa por mais de uma hora. Não deu para ver qual era o tipo do carro porque os faróis só foram acesos quando estava bem distante.
O promotor responsável pelo caso, José Geraldo Gonçalves, disse à Folha que sabia das ameaças e que não pediu proteção para a Polícia Civil porque o órgão está sendo investigado. Ele adiantou que já pediu providências para elucidar o desaparecimento, mas não pode adiantar quais serão os caminhos. A ameaça contextual está no ar desde o calor dos fatos.
E nesse contexto, nós concluímos que todos os envolvidos, inclusive o Centro de Direitos Humanos e os promotores que investigam o caso, correm riscos, acredita o promotor.
Gonçalves diz não querer acreditar que o desaparecimento da testemunha tenha ligação com a morte dos quatro rapazes. Quero crer no respeito às leis e na segurança. Não posso pensar, nesse primeiro momento, que ele tenha sido tirado de circulação pela própria polícia. O delegado da 6ª Subdivisão Policial Altino Remi Gubert, responsável pelo inquérito que apura a morte dos rapazes, disse ontem que determinou investigações para localizar o carpinteiro.
O delegado revela que a polícia está levando em consideração um telefonema anônimo informando que Messias desapareceu porque caiu em contradição em seu depoimento, no qual teria denunciado traficantes que atuam na Favela Monsenhor Guilherme. O presidente do CDH descarta essa possibilidade. Tenho cópias do depoimento de Messias. Ele não caiu em contradição, foi contundente no que disse à polícia em relação à execução dos rapazes e não denunciou traficantes, garante Klich.
EscondidoOutra testemunha da operação policial, o adolescente A.B.R., de 16 anos, também está ameaçado de morte e foi abrigado em uma Igreja Católica da cidade. O presidente do Centro de Direitos Humanos disse ontem que o rapaz continua escondido e que está evitando sair da igreja. As testemunhas são as principais peças desse caso e não podem começar a desaparecer, alerta Klich.


