Com uma única gota de sangue, bebês com menos de um ano de vida nascidos em 78 municípios do Norte do Paraná poderão ser submetidos, a partir da próxima semana, a um teste de DNA capaz de detectar um tipo muito raro de câncer: o tumor de córtex adrenal. O serviço foi lançado ontem, em Londrina, por médicos do Instituto de Pesquisa Pelé Pequeno Príncipe, de Curitiba.
O teste será oferecido gratuitamente em 54 maternidades públicas e particulares da região. O próprio instituto curitibano desenvolveu e patenteou a tecnologia, que permite que o sangue seja coletado em uma tira de papel especial e transportado até o laboratório da capital sem necessidade de refrigeração. A partir da amostra, os pesquisadores conseguem detectar se a criança possui a mutação genética que pode levar ao desenvolvimento desse câncer.
O médico coordenador da campanha, Bonald Figueiredo, explica que o tumor de córtex adrenal se forma em uma glândula localizada acima do rim. Ele aumenta a produção de hormônios, provocando na criança o aparecimento de características típicas da adolescência, como pêlos na genitália, acne e alteração da voz. ''O diagnóstico precoce é muito importante. Quando o tumor atinge mais de 50 gramas, as chances de cura são bem menores. Hoje, metade dos doentes morre e os demais têm uma qualidade de vida muito ruim, tendo que operar várias vezes e fazer quimioterapia'', afirma.
Segundo o especialista, o tumor se desenvolve com mais frequência em crianças de até quatro anos. O oncologista Guilherme Parise, do Pequeno Príncipe, diz que a maioria das crianças chega ao hospital com um estado avançado da doença. Além de ser ''enganador'', às vezes sem apresentar sinais clínicos, esse tipo de câncer ainda é desconhecido não só dos pais, mas de muitos profissionais de saúde. ''E quanto mais avançado o quadro, mais agressivo é o tratamento'', salienta.
Curiosamente, o Paraná apresenta incidência da doença 15 vezes maior do que no resto do mundo. Ainda é um mistério para os pesquisadores o porquê de a mutação genética ocorrer, praticamente, só no Sul e Sudeste do País. ''Pode ser devido a alguma coisa que ocorreu no passado nessa região, mas que foi passando como herança genética às atuais gerações'', especula.
Um dos objetivos da disseminação dos testes de DNA é obter dados mais precisos sobre a ocorrência do tumor no Estado. Em cerca de um ano e meio de campanha, mais de 100 mil testes já foram aplicados - faltava apenas a região Norte. Os pesquisadores já encontraram mais de 270 famílias que possuem a mutação e constataram que entre 5% e 10% dos portadores desenvolvem o tumor. No Paraná, são registrados de 12 a 15 casos por ano.
Apesar do número relativamente pequeno de casos, Figueiredo acredita que a gravidade da doença justificaria que o teste de DNA se tornasse obrigatório. ''A fenilcetonúria (uma das doenças detectadas no teste do pezinho) tem a mesma incidência, não mata como o tumor de córtex e é obrigatória'', compara.
Os dados da pesquisa deverão subsidiar a reivindicação de um projeto de lei que torne o teste oficial.
Enquanto isso não acontece, o serviço será oferecido por funcionários das maternidades a todas as mães, que poderão aceitá-lo ou não. O oncologista Guilherme Parise ressalta que é preciso esclarecer muito bem o objetivo do teste para as famílias. ''Já tivemos casos de pais que brigaram com as mães por conta disso. Acharam que elas estavam fazendo o teste por ter dúvidas sobre a paternidade da criança'', comenta. Os bebês que tiverem a mutação confirmada poderão receber, também gratuitamente, acompanhamento médico.

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