As amigas Kelly e Amanda não só se lembram do exato dia em que se conheceram, como também trocam presentes para comemorar. Coincidentemente, o dia é exatamente hoje, 20 de julho, data em que se celebra o Dia da Amizade. ''Nós nos conhecemos em uma 'festa do amigo' realizada pelo cursinho, por intermédio de um ex-paquera. Naquele dia, briguei com ele e ganhei uma amiga. No final das contas, saí ganhando'', relata Kelly Cristina Soares Tozi, 20 anos, que hoje trabalha como florista.
Apenas pelo entusiasmo com que fala dessa amizade, Kelly já transmite o significado que tem essa relação na sua vida. ''Nós somos mais do que amigas. Somos irmãs que nasceram em famílias diferentes'', define.
Laços de amizade tão fortes, porém, não impedem que haja um ou outro desentendimento. ''Uma vez nós brigamos, ficamos um mês sem conversar. Eu chorava muito. Na época, meu noivo até chegou a me levar à casa dela, mas eu não quis entrar, fiquei lá em frente chorando. Até que ela me mandou flores e a gente se entendeu'', revela.
Para ser uma boa amiga, segundo Kelly, a pessoa tem que sempre dar apoio, importar-se com o outro e ser sincera. ''Tem que dar o ombro, mas também tem que dar um toque, porque se a pessoa esconde a própria opinião não está sendo transparente; isso ajuda o outro a crescer e melhorar como pessoa'', recomenda.
Depois de passar a vida inteira morando na mesma rua, ela também conseguiu fazer e preservar grandes amigos entre os vizinhos. ''Éramos em seis, e vivíamos sempre juntos, andando de bicicleta, roubando manga. Quando eu machuquei o pé, um deles me levou ao hospital'', rememora. Hoje, dois deles já se casaram e a correria do dia-a-dia afastou-os um pouco, mas o companheirismo permanece até hoje, e combina com a rua onde esses jovens cresceram: Avenida dos Amigos, na Zona Norte de Londrina. Divididos em umas poucas casas que ocupam apenas uma quadra da avenida, os moradores atestam que, entre eles, não há desavenças.
''Hoje em dia é mais fácil fazer amizades pela internet, mas é diferente. Acho que para conhecer mesmo a pessoa é preciso conviver um pouco com ela'', avalia o vizinho Carlos Eduardo Dorigo Domingos. Ele diz não se lembrar de uma história específica envolvendo seus amigos, mas assegura que ''qualquer coisa que um amigo faz pelo outro é bonita''. Qualquer coisa mesmo: ele assume que até já mentiu para ajudar um amigo. ''A gente mente direto. Fala que vai para algum lugar e vai pra outro. Mas nunca deu problema.''
Perto dali, a Rua da Amizade também reúne amigos de longa data. ''Aqui a grande maioria se conhece, porque moramos aqui há muitos anos. Mudei-me para cá faz só oito anos, mas fui bem recebida desde o primeiro dia'', conta Marinalva Silva, uma das moradoras mais novas. ''Você pode brigar até com alguém da família, mas com o vizinho, não. Porque do parente você pode se afastar, mas o vizinho você tem que ver todos os dias'', ensina, garantindo que, na rua onde mora, a amizade e a harmonia (nome da rua de cima, aliás) imperam entre os moradores.
Ir entrando na casa da vizinha, sem precisar pedir licença, é comum na rua da Amizade. Lá, também, é comum um vizinho tomar café ou mesmo almoçar na casa do outro, além, é claro, de pedir e oferecer ajuda de todos os tipos: de pegar emprestada uma lata de leite condensado a ir ao Instituto Médico Legal fazer o reconhecimento do corpo do neto da vizinha - coisa que Emy Esteves do Nascimento, uma das moradoras mais populares da rua, já fez.
Emy é professora aposentada, e se lembra do tempo em que havia 22 crianças de 4 a 10 anos morando na rua. ''Já cheguei a dar aula a 15 crianças que eu vi nascer, filhos de amigos meus'', relembra. Hoje, muitos desses ex-alunos são seus vizinhos nessa crescente rua da amizade.

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