Tese indica como evitar infecção em UTI
PUBLICAÇÃO
quinta-feira, 15 de outubro de 1998
Lúcio Horta 
O emprego de medidas simples e baratas pode reduzir significativamente os níveis de infecção hospitalar. A conclusão é de uma dissertação de mestrado da médica infectologista Cláudia Maria Dantas de Maio Carrilho, da Comissão de Controle de Infecções Hospitalares do Hospital Universitário (HU) e também da Santa Casa de Londrina. A tese foi defendida este ano no curso de pós-graduação em medicina interna da Universidade Estadual de Londrina (UEL).
O objetivo do trabalho, segundo Cláudia Carrilho, foi estimar a incidência de pneumonia entre os pacientes das Unidades de Terapias Intensivas (UTIs) do HU e estudar quais são os fatores que oferecem mais riscos no desenvolvimento da doença. A escolha da pneumonia não foi por acaso: a doença representa cerca de 50% de todas as infecções que surgem numa UTI.
Cláudia Carrilho acompanhou durante um ano - de julho de 1996 a julho de 1997 - todos os pacientes que ficaram internadas por 24 horas ou mais na UTI do HU. No total, foram analisados 540 pacientes e o tipo de tratamento a que foram submetidos, como sondas, tubos, catéteres, antibióticos e cirurgias. Até mesmo o histórico que ele apresentava antes de entrar no hospital, como doenças cardíacas ou pulmonares, diabetes e obesidade.
Dos 540 pacientes, 15% - ou 83 pacientes - desenvolveram a pneumonia. O número está dentro da média estatística nacional, que prevê a incidência de pneumonia de 10% a 65% dos pacientes de UTI. A médica passou a avaliar todos os fatores de risco que poderiam ter causado a doença nos pacientes. O resultado da pesquisa apontou, pelo menos dentro do HU, os quatro maiores causadores da pneumonia na UTI.
Um dos fatores, segundo Cláudia Carrilho, foi a traqueostomia, um procedimento cirúrgico realizado no pescoço e que serve para auxiliar a respiração. A formação de bactérias no aparelho acabava, algumas vezes, gerando a pneumonia. A sonda nasogástrica (uma sonda colocada no nariz para alimentação do paciente) também foi avaliada como um fator de risco. Outro problema foi a utilização de drogas protetoras do estômago, conhecidas como bloqueadoras dos receptores H-2. Apesar de prevenir doenças como a úlcera ou a gastrite, o medicamento acabava também facilitando o surgimento da pneumonia.
O último fator de risco foi o rebaixamento do nível de consciência do paciente. Ou seja, quando ele apresenta algum nível de coma. Cláudia Carrilho explica que, em coma, o paciente não expectora (não tosse), o que facilita a aspiração de material do estômago para os pulmões. O resultado é a formação de cultura de bactérias no pulmão e, consequentemente, a pneumonia.
A partir da análise dos resultados, Cláudia Carrilho partiu para elaborar um plano de prevenção das pneumonias nas UTIs. Esse plano foi repassado para os funcionários do HU e da Santa Casa. Além disso, também foi produzido um panfleto explicativo que hoje se encontra nas UTIs dos dois hospitais.
Entre as medidas adotadas, segundo a médica, está deixar o paciente semi-sentado no leito da UTI, com uma inclinação de 45 graus, ao invés de deitado. Essa técnica ajuda a evitar a aspiração de material expectorado. O trabalho aponta para cuidados como fazer sempre a aspiração da secreção do paciente entubado; a administração com critério rigoroso do uso de antibióticos e bloqueadores de H-2; a utilização de sondas mais finas, o que pode diminuir a formação de bactérias; lavagem de mãos para todos que têm acesso à UTI, tanto profissionais quanto visitantes; utilização de luvas esterilizadas; e outros procedimentos, sempre levando em conta a assepsia.
Cláudia Carrilho diz que agora pretende acompanhar a evolução da incidência da pneumonia nas UTIs da Santa Casa e HU, depois da implantação das novas medidas. A expectativa é que o surgimento de novos casos comece a diminuir. Infecção zero não existe em um hospital. O que existe são índices aceitáveis mundialmente, diz a médica.


