Tese de doutorado pôs Molina na área da investigação
Tese de doutorado pôs Molina na área da investigação
Ricardo Molina Figueiredo entrou para o Departamento de Medicina Legal por uma porta que ele sequer imaginava existir 10 anos atrás. Ele é músico, formado em 84 pela Faculdade de Música da Unicamp. Em 1990 iniciou um curso de mestrado em Linguística, no Instituto de Estudos da Linguagem da universidade.
Caminhando na contramão da linguística, que trata das línguas e portanto busca sempre os fenômenos gerais, eu me preocupava com a particularidade dos sons e das linguagens. O que me interessava era saber porque, em determinadas circunstâncias, o som se dá de um jeito e não de outro, conta.
Estes estudos resultaram em sua tese de doutorado, apresentada em 94: Identificação do Falante: Aspectos Teóricos e Metodológicos. É um calhamaço de mais de 300 páginas, com centenas de horas de gravações e análises de sons feitas através de computadores. Nela, Molina estabelece princípios rigorosos para se chegar àquilo que ele chama de identificação do falante.
A voz de cada indivíduo é constituída por um conjunto de parâmetros, que leva em conta todo o seu tipo físico - laringe, cabeça, tórax, frequência de vibração das cordas vocais e etcetera -, mas também é formada por fatores culturais como a entonação, que chamamos música da voz, ritmo, tempo, velocidade da fala e padrões de hesitação, explica.
A partir da catalogação destes parâmetros, com a utilização de instrumentos científicos modernos, ele mostra como é possível obter a verdadeira impressão digital das vozes humanas e também de cada som que se encontra na natureza. O trinado de um pássaro, o grito de um animal, o ruído do motor de um automóvel, a explosão de um tiro, um terremoto ou a voz de um indivíduo têm um registro único, pessoal e intransferível, diz.
Este registro é o espectrograma do som que pode ser lido através de programas especiais de computador. Antes mesmo de obter seu título de doutor no Instituto de Estudos da Linguagem, Molina já se tornara conhecido por seu trabalho nos meios acadêmicos. Por isso, em 91 foi procurado pelo médico Nelson Massini, do Departamento de Medicina Legal da universidade.
Massini, ao lado do legista Fortunato Badan Palhares, já era uma celebridade nacional, responsável pela introdução de métodos científicos modernos na investigação de crimes. O que Massini trazia nas mãos era um verdadeiro abacaxi, lembra Molina. Ele tinha as fitas gravadas por Volney DÁvila, onde supostamente o então ministro do Trabalho de Collor, Rogério Magri, propunha montar um grande esquema de corrupção para fraudar o INSS.
No caso - lembra Molina - Massini queria saber se a voz que aparecia nas fitas era mesmo de Magri e se as gravações haviam sido realizadas nas circunstâncias descritas por Volney, ou seja, dentro do gabinete do ministro do Trabalho. A primeira pergunta foi fácil de responder. Bastou comparar aquela voz com a voz de Magri registrada em outras fitas, conta.
Uma particularidade, descoberta em uma rápida visita ao gabinete do ministro, ajudou Molina a elucidar a segunda questão. No gabinete há um carrilhão, um destes relógios grandes e antigos de parede, que marcam as horas e as meias horas com o som característico de uma sineta. Fizemos o espectrograma do som da sineta, localizamos este som no registro das fitas gravadas por Volney e, assim, conseguimos precisar até o minuto aproximado das conversas, diz.
Depois da elucidação deste caso, ainda no Instituto de Estudos da Linguagem, Molina ajudou Massini em inúmeros outros. Só em 95, com a criação do Laboratório de Fonética Forense, ele se transferiu para o Departamento de Medicina Legal, que passou a dirigir há dois anos. (P.S.M.)





