Dentro de 100 anos, algumas ilhas poderão simplesmente desaparecer do mapa, caso se confirmem as previsões de elevação do nível dos oceanos. E por mais que um século possa parecer muito tempo, as discussões em torno do assunto podem ser consideradas um pouco ''atrasadas''.
Quem explica melhor essa questão é uma pesquisadora londrinense que tem defendido a soberania dessas regiões, mais especificamente das ilhas Kiribati, Tuvalu e Marshall, no Pacífico Sul, e das Maldivas, no Oceano Índico.
Formada em Direito na Universidade Estadual de Londrina (UEL), Lilian Yamamoto concluiu um mestrado e doutorado em Direito Internacional no Japão e agora está na fase final de seu primeiro livro em inglês, traduzido como ''Mudança climática e as pequenas ilhas que podem desaparecer''.
De acordo com ela, a mudança climática provocada pelo aquecimento global está provocando o aparecimento de um maior índice de gás carbônico no ar e, consequentemente, está derretendo as calotas de gelo e aumentando o nível do mar. ''Algumas ilhas que são muito baixas podem afundar'', afirma.
O interesse pelo tema surgiu há cerca de três anos, quando trabalhava na Universidade das Nações Unidas. ''Assisti uma palestra sobre o assunto e me interessei, assim como um colega de trabalho, que também se prontificou a fazer uma pesquisa, não só na área de soberania, mas também das construções de defesa e alternativas'', explica.
Um levantamento feito em 2009 pela Organização das Nações Unidas (ONU) estima que 50 milhões de pessoas tiveram que deixar seus lares por problemas decorrentes de desastres naturais. Segundo a Organização, em 2050, o número de seres humanos nessas condições poderá atingir entre 250 milhões e 1 bilhão.
As ilhas que são alvo do estudo da pesquisadora, porém, não possuem um número grande de habitantes (estimado em 415 mil) e, ''portanto, não proporcionam uma força suficiente para criar uma convenção específica para lidar com elas. Esse é um grande problema'', observa.
De acordo com ela, para os países onde essas pessoas irão se deslocar - geralmente em localidades vizinhas - é importante adotar o mesmo sistema de recepção de refugiados, para eles possam trabalhar e ter direitos, como por exemplo, trabalhistas. Mas, em primeiro lugar, é preciso discutir qual é a estrutura de cada país que irá recebê-los.
Porém, a solução não é simples como possa parecer. Segundo Lilian, na hora de identificar esses deslocados ambientais há uma certa dificuldade, já que muitos deles são confundidos com migrantes econômicos. Ela explica que, economicamente, essas ilhas não têm muita autonomia, com exceção das Maldivas, onde o setor de turismo gera grande movimentação.
''Nas outras ilhas, a parcela da população que vai trabalhar em outros lugares é tratada como migrante econômico e não como deslocado por fatores ambientais. Então, essas localidades não dão um tratamento diferenciado a essas pessoas e isso será um grande problema'', declara.
Soluções
Segundo a pesquisadora Lilian, o governo australiano tem a posse de uma ilha e chegou a oferecer o território para que os deslocados vivessem lá. Para ela, essa solução não é viável, já que para manter esse ''país'' o governo sugere que haja uma secção de território ou que seja comprada uma ilha em outra localidade para transferência. ''Essas ilhas que estamos estudando eram ex-colônias. Quem dirá que elas terão poder suficiente de pegar um território de um outro país para comprar e transferir toda a população?''
A questão, segundo Lilian, é saber se essas soluções apresentadas são, na verdade, só teóricas ou se terão viabilidade e se uma situação específica como essa, que atinge países que eram ex-colônias e ex-territórios do Império Britânico, impulsionaria a criação de uma convenção nesse contexto histórico que eles têm, ''pois os esforços dos países hoje é de recusar a entrada de pessoas''.
Para isso, a pesquisa de Lilian busca observar diversos cenários para descobrir como a comunidade internacional reagiria a este problema. No Brasil, ela explica que este tipo de estudo só tem sido considerado de forma mais generalizada, como foi o caso dos haitianos refugiados. ''Mas não há nada relacionado a essas ilhas'', afirma ela, ao ressaltar que pelo fato do Brasil ser um país continental ''talvez os pesquisadores não se interessem tanto quanto os outros países que irão receber essas pessoas, como a Austrália, Nova Zelândia, Inglaterra e Estados Unidos''.
Ao observar que esses países não estão aceitando muitos refugiados, Lilian afirma que a solução apontada por eles é de repatriamento voluntário - situação em que os governos tentam repatriar essas pessoas, oferecendo muitas vezes uma verba para que elas retornem ao país. ''O problema é que os deslocados ambientais dessas ilhas não terão um lugar para voltar. E essa é uma outra questão que estamos estudando. Seria possível existir um país sem território?''
É por essas e tantas outras incertezas que um século pode até ser considerado um período curto, pois as soluções que envolvem a perda territorial e a manutenção da cultura de uma população que terá a pátria desaparecida do mapa devem surgir sim, mas podem levar muito tempo.

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