Para o viajante brasileiro que ingressa no Paraguai por Ciudad Del Este, a paisagem chama a atenção. Na região fronteiriça com Foz do Iguaçu (Oeste do Paraná), muito pouco existe de produtivo nas terras para além da margem da rodovia que leva à Assunción. O que se vê são alguns poucos pés de mandioca, minguadas pastagens que alimentam uma meia dúzia de cabeças de gado e mais nada.
A paisagem só começa a mudar quando se toma a Ruta Nacional nº 6 (rodovia de 247 quilômetros que faz a ligação entre Ciudad Del Este e Encarnácion, na fronteira com Argentina) em direção à Santa Rita, cidade com pouco mais de 30 mil habitantes onde cerca de 70% são brasileiros (entre eles muitos paranaenses) que migraram para a região entre as décadas de 1970 e 1980 e passaram a ser chamados de ''brasiguaios''.
A terra, que antes tinha aspecto abandonado, ganha vida em fazendas de grãos (soja, milho e trigo). A mudança é obra dos brasiguaios, que levaram a experiência na agricultura e, favorecidos pela baixa carga tributária (8%, ou quatro vezes menor que a do Brasil), conseguiram usar uma tecnologia de ponta incomum até mesmo em solo brasileiro.
Brasileiros passaram a investir em terras do lado paraguaio ainda na década de 1970, quando o próprio Governo do Paraguai intentava desbravar e colonizar regiões ainda inóspitas, como o Departamento de Alto Paraná, no leste do país. Na década de 1980, as matas deram lugar à agricultura que, desde logo, se mostrou bastante promissora.
Já no início dos anos 2000, a produção graneleira consolidou sua importância econômica e o Paraguai despontou como grande produtor e exportador mundial, principalmente de soja e derivados. Os brasiguaios, naturalmente, tomaram a dianteira no negócio, sendo os responsáveis pela maior parte do que era e é produzido. Só um brasileiro naturalizado paraguaio - Tranquilo Fávero - é dono de mais de 45 mil hectares agricultáveis.
Segundo o Departamento de Agricultura dos Estados Unidos (Usda), o Paraguai é hoje o sexto produtor mundial de soja (8,1 milhões de toneladas na safra 2010/11) e o quarto país exportador (quase 6 milhões de toneladas). Na formação do Produto Interno Bruto (PIB) paraguaio - US$ 33,27 bilhões em 2010 -, a agricultura detém quase 22% e foi um dos motores do crescimento de 14,5% no ano passado.
Insegurança
Nos últimos meses, entretanto, o otimismo entre os brasiguaios deu lugar à intranquilidade e insegurança. Se antes a ameaça eram as invasões de terras lideradas pelos campesinos, o problema agora é bem mais grave. Cidadãos paraguaios ingressaram na Justiça, em Assunção, apresentando títulos referentes às áreas pertencentes aos brasiguaios.
Conforme informações da Coordenadoria Agrícola, associação que reúne produtores do Alto Paraná, a duplicidade de títulos - classificados como falsos pela entidade - afeta mais de 60 proprietários de terra e atinge uma área de 50 mil hectares. Mesmo diante de divergências grotescas entre os títulos de brasiguaios e os que agora aparecem nas mãos de nativos, a Justiça paraguaia da capital concedeu decisões exigindo que os proprietários brasileiros deixassem suas áreas.
Pouco interessados, os governos de ambos os lados pouco interviram até o momento. O Paraguai criou um grupo para avaliar a situação. Já o Brasil se mantém omisso e, por enquanto, não deram suporte diplomático aos interesses dos brasileiros que vivem e produzem na margem estrangeira do Rio Paraná.

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