TERRA RICA - A mulher que acorda a cidade
PUBLICAÇÃO
quinta-feira, 04 de novembro de 2010
Wilhan Santin 
Todo domingo, cinco minutos antes das 7h, os sinos da paróquia Santo Antônio de Pádua, em Terra Rica (Noroeste), badalam 50 vezes. O som se espalha rápido pela cidade de 15 mil habitantes. É o aviso de que a missa matinal está para começar.
Os fiéis atrasados apertam os passos para não perder o começo da celebração. Alguns usam bicicletas. Quem não vai à missa mas quer curtir o domingão aproveita para se levantar. Já aqueles que querem ficar até mais tarde na cama, desfrutando do merecido descanso, esperam terminar a badalação para voltar a dormir. Segundo o padre Isaías Manoel Silva, nunca houve reclamação por causa do barulho, mas pela falta dele. ''Se os sinos não tocam, as pessoas começam a ligar na casa paroquial questionando o por quê'', garante. As badaladas se repetem nas noites de sábado e nas tardes de quarta-feira.
Os sinos - são três - ficam no alto da torre da igreja construída há quase seis décadas, de onde é possível avistar, ao Norte, o Rio Paranapanema, já na divisa do Paraná com São Paulo.
A responsável pelo som que acorda Terra Rica é uma senhora de 66 anos e braços fortes, treinados por duas décadas puxando a longa corrente que aciona o conjunto. Ela é Dalva Ferreira Lima, uma mineira que chegou mocinha ao Paraná para ser colona nos cafezais. Quando a saúde do marido, Vicente, 75, deu sinais de que não ia bem, resolveu morar na cidade. Tem sete filhos, 23 netos e nove bisnetos. Casou cedo, aos 16. Só deixa o ofício na igreja quando tem que visitar um dos filhos em Presidente Prudente, do outro lado do Paranapanema.
''Em todo esse tempo, faltei pouquíssimas vezes, mas sempre arrumo alguém para me substituir. É uma responsabilidade, pois faz com que as pessoas não percam a hora. Até quando eu tiver saúde, farei os sinos tocarem'', relata, toda prosa.
Ela só não sabe dizer por que são 50 badaladas antes de a missa começar. Foi dona Perciliana, que fazia a função antes dela, que ensinou. O padre também não sabe. ''São cinquenta? Eu nunca tinha contado! Agora vou reparar'', respondeu o sacerdote Isaías ao ser questionado se sabia a razão. Zeloso pela tradição, ele também prefere manter o sistema manual em vez de modernizar, instalando sistema eletrônico, como acontece em outras paróquias.
Terra Rica também tem uma rampa de voo livre instalada sobre o local conhecido como Três Morrinhos. Local que atrai gente praticante desse esporte de diversos cantos, movimentando os hotéis da cidade. Outro orgulho da cidade é o fato de o cantor sertanejo José Rico, que faz dupla com Milionário, ter sido criado ali, usando o sobrenome Rico em homenagem à simpática cidade. Assuntos para uma próxima.
Sugestões - reportagem-folhadelondrina.com.br ou (43) 3374-2184


